sábado, 12 de setembro de 2009

O TEXTO BÍBLICO

Nos confins do Ceará, Veneraldo, Dorcelina e seis filhos sobreviviam da agricultura. Fazia meses que não chovia. Da última precipitação, não restara sequer a lembrança.
Veneraldo passava o dia pensando no seguinte, olhos no crepúsculo pressagioso, pés sobre o solo esturricado. Não havia pior miséria, do que ver os filhos e a mulher famintos, transformados em chocalhos de ossos vivos.
Dia sim, dia não, trovejava ao entardecer nos fundões do leste, onde nuvens pesadas alegravam a alma. Era só promessa. Noticiando chuva, as cigarras estardalhaçavam seu canto. Era alarme falso. Também os insetos deliravam ao rigor da canícula perversa. Veneraldo acreditava no coaxar da saparia. Entretanto, onde sapo, onde brejo, se tudo virara um só sequeiro? Manhã seguinte, o sol estendia seu manto causticante sobre os homens, sobre as plantas, sobre a terra e as ilusões.
Certa tarde, Dorcelina não retornou da cacimba. Pai e filhos caminharam em procissão de reza pura durante horas, na crença de que a mulher se acometera de algum mal. Que nada! Do que ouviram, Dorcelina abandonara a família na garupa do jegue de Zé Fadinho, em direção a um pau-de-arara destinado à cidade grande. Frustrados, retornaram praguejando o mundo. Fazer o quê, senão excomungar a desonrada desertora?- Pensara Veneraldo, constrangido diante dos filhos, imaginando como viver sem as costelas da mulher. Os dias passaram. Só o mandacaru mantinha-se de pé nos arredores do casebre.
Numa noite de lua cheia, as crianças cantavam modinhas. Desajeitadas, cirandavam e riam. Ao fim, recolheram-se. Veneraldo comoveu-se. Não lhe passara a idéia de que tamanha miséria concedesse espaço ao canto, ao riso, à felicidade. Resolveu procurar depressa uma solução. Sentira o quão dificultoso fora às crianças realizar simples dança de roda. Não sofreriam mais. A subnutrição fazia e desfazia de seus corpos esquálidos. Não mais comeriam calangos e ratos, mesmo porque estes já rareavam no estéril cenário da seca. Tampouco saciariam a sede nas águas salobras, turvas e fedorentas das terras do Genivaldo da Otília, que anunciara intenção de botar preço nas latas de vinte litros. Fugir? Para onde? Veneraldo rompeu a noite lavrando projetos. Olhava para o céu, rezava e pedia solução. Até que deu um estalo! Sem mulher, sem chuva e sem saída, a morte seria a melhor dádiva. As crianças não se importariam de ir para o céu mais cedo. Seria a salvação, pensou, diante dos poucos pecados apurados durante a vida.
Pela manhã, convocou as crianças para dizer-lhes que a solução seria procurar refúgio no céu. Lá encontrariam o mínimo para vencer a eternidade: farinha de mandioca, rapadura e água limpa. Orozimbo, o menor, lambeu os beiços; Serena torceu-os, com ares de dúvida; Querubim manteve-se estático, olhos fixos no rosto do pai, imaginando a fantástica viagem divina; Evanildo coçou o queixo, achando excelente a saída; César idealizou viajar para a Capital, onde, segundo diziam, jogavam leite e mel nas lixeiras. Veneraldo afirmou, porém, que a morada do capeta era justo na Capital, ao que César logo anuiu. Marinalva, a mais velha, com 13 anos, detestou a opção paterna; contrariava ensinamentos bíblicos. Passavam por uma provação e, se tentassem contra a vida, o destino não seria o paraíso celestial, mas os caldeirões do inferno. O pai e os irmãos olharam-na surpresos, pois Marinalva não se dava bem com as orações. O pai a obrigava à leitura de trechos da Bíblia, por ser a única alfabetizada. Ela disse, ainda, encontrar-se no livro sagrado a maldição pesando sobre os que põem cobro à vida: Deus os mandaria de volta à Terra em forma de bichos. Veneraldo pediu que ela mostrasse onde estava a prescrição do castigo. Marinalva folheou o livro, parou numa página e leu: "Aquele que desistir voluntariamente de viver, pretendendo as delícias do paraíso, encontrará as portas do céu fechadas, retornando à Terra em forma de bicho". Foi o bastante para desistirem da idéia do suicídio. De repente, trovejou forte; Marinalva alertou ser mandado de Deus, renovando as esperanças dos descrentes. Veneraldo sentiu arrepios; àquela hora do dia, não era comum trovejar. Ao demais, o estrondo se dera no momento imediato à leitura do trecho bíblico. Marinalva fechou a Bíblia e se aquietou em reservada satisfação. Sucumbira o projeto absurdo do pai!
Daquele dia, decorreram quatro meses. Veneraldo, até ali, enterrara cinco filhos, todos mortos de inanição. Agora, Marinalva enterraria o pai que morrera de fome, tristeza e desesperança. Não suportou o suplício. Sepultado, ela se sentou na soleira da porta e chorou. Convenceu-se de que o falso texto bíblico lido ao pai e irmãos continha verdadeira e severa sentença. Mas naquele momento seu descortino não alcançava solução diversa da indicada pelo sofrido homem.
Já era noite. Um gemido ecoou pelo descampado sertanejo. Uma velha faca, usada para cortar cactos, alimento que lhes restara na lavoura da miséria, rompera o coração da jovem.
Dia seguinte, enquanto chovia torrencialmente, uma cascavel refugiava-se na desolada tapera, junto ao corpo da menina-moça.

CAÇA AO FRANGO

Domingo, André comeria galinha ao molho pardo. No sábado, foi ao abatedouro com a esposa. O atendente colocou-os à vontade na escolha da ave. Num amplo galpão, onde centenas delas se alvoroçavam, André apontou para uma penosa bem gorda, logo atingida pelo puçá preso a um cabo de vassoura. Nesse momento, de inopino, André avançou galinheiro adentro atrás de um frangote chegado a carijó. Seu gesto subitâneo colocou as aves em polvorosa. Sua mulher, o atendente e os fregueses espantaram-se. O homem enlouqueceu? - Pensaram.
- Quero aquele frango pintado!- Gritou ele, atrás do ágil galináceo.
A confusão alertou o dono do estabelecimento. Ninguém explicava o comportamento de André. Cansado, pediu ajuda à mulher.
- Já escolhi a nossa galinha, André!
- Levamos a galinha e o frango! - Respondeu ele.
- Não há necessidade, amorzinho.
- Não discuta! Pare de falar e me ajude a pegar esse desgraçado!
A coisa ficou nebulosa. André parecia enraivecido. 'Desgraçado' passou a ser elogio.
Num dado momento, ele se confundiu. Apareceu outro frango igual ao perseguido. Deu meia parada e pediu à esposa para não deixar passar nenhum tobiano.
- Meu bem, tobiano é cavalo com manchas brancas sobre pêlo avermelhado ou escuro.
- Dá no mesmo, Joana. Quero os frangos pretos pintados de branco, tipo carijó falsificado.
Em diante, todos ajudaram, aprisionando quatro frangos pretos com pintas brancas.
- Levarei os quatro, mais a galinha.
- Meu bem, o que deu em você?
- Depois falamos! Não importune. Em casa, eu explico.
- Mato os quatro? - Perguntou o dono do abatedouro.
- Não, não. Só a galinha. Reserve o sangue, pois será à cabidela. Levarei os frangos para criar. Agrada-me o colorido de suas penas.
Os fregueses entreolharam-se, reprovando o péssimo gosto de André.
Quase num murmúrio, sua mulher perguntou:
- Como criaremos frangos em apartamento?
Rispidamente, porém baixinho, respondeu:
- Cala a boca, mulher!
Da barafunda, ele saiu meio envergonhado. O dono do comércio meteu ripa:
- Cada louco com sua mania.
Em casa, André emborcou um cesto sobre os frangos e apanhou uma faca afiada.
- Para que a faca?
- Você é curiosa, faz muita pergunta. Trinta anos de casados, só agora descubro sua língua e sua mente como péssimas aliadas para acompanhar-me no dia-a-dia.
- Oh, André, o que deu em você?
- Cuide da galinha e me deixe com os frangos!
André apanhou o primeiro e firmou sua cabeça no esfregador de roupas do tanque. Num golpe, decepou-a. Ainda se mexendo, André rasgou-o com precisão cirúrgica, sacando o papo e a moela. Tirou o alimento e colocou num prato: areia, milho, ração e por aí. Até uma miçanga azulada ele encontrou. Depois de vasculhar, jogou o conteúdo do prato na lixeira.
- Joana, depene este.
- Você faz a coisa errada. Primeiro, mergulha-se o frango na água fervente, retirando-se as penas. Depois é que se extrai o papo.
- Sei o que faço! Você já está enchendo o saco!
- Vai para o molho pardo?
- É muita coisa. Limpa e põe no freezer!
André partiu para o segundo frango. Matou-o, retirou a moela e o papo. O mesmo procedimento anterior. Depois de bem esmiuçado o alimento do miúdo sobre o prato, lançou-o à lixeira. Após, entregou-o à mulher para depená-lo, partindo para o terceiro frango.
- Vai matar outro?!
André já não falava. Apenas balançava a cabeça.
Joana estranhava seu comportamento. Desde que iniciara a perseguição aos frangos no matadouro, não mais sorriu. Ar circunspecto, falava de lado. De súbito, Joana assustou-se:
- Achei! - Gritou André, esfuziante, enquanto Joana corria ao seu encontro.
- Achou o quê, André?
- Vamos, Joana, passe-me o álcool e aquela cola rápida que está na porta da geladeira!
André trancou-se no banheiro, levando bons minutos para sair. Quando o fez, era outro homem. Até sua cor melhorou. Voltou a ser o homem que Joana conhecia: alegre, comunicativo, sorridente e amoroso. Pediu-lhe desculpas por algumas grosserias.
Resgatado o pivô e o respectivo dente que soltara da arcada dentária, no momento da escolha da galinha no matadouro, não havia mais motivo para tristeza e cara fechada. O frango engolira a peça e André tinha a exata noção de quanto pagara ao dentista pelo serviço.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

A COBRA GUARDIÃ

Havia um trecho piscoso do Rio Paraíba do Sul, divisa de Minas com o Estado do Rio, onde não ousavam pescar. Os antigos alertavam sobre a existência de enorme cobra vigiando de margem a margem. Os pescadores nunca a viram, mas a respeitavam.
Era aviso de pai para filho. O local ficava abaixo da hidrelétrica da Ilha dos Pombos. Povo desconfiado, nem chegava perto da área esconjurada. Divertia-se noutras paragens. Havia rio demais para se preocuparem com trecho tão insignificante.
Caetano não era de crendices. Para ele, superstição significava carência de neurônios. Não se abalava com fantasmas, bruxas, cobras gigantes, vampiros e por aí afora. Nascera na cidade do Rio de Janeiro. Até ali, aprendera que o perigo morava dentro do homem. Assistira a coisas do arco da velha, inclusive já tropeçou em cabeças decapitadas por bandidos; conviveu com assaltos, estupros, sequestros, assassinatos brutais. Não tinha medo de balas perdidas. Assim, como ter receios de uma cobra, conhecida há anos como guardiã de um pedaço de rio? Pura gaiatice, pensou.
Aposentado, comprou um sítio defronte ao rio, próximo ao local perigoso. Ouvira a advertência, acreditando que o IBAMA fora quem plantara a idéia, visando a preservação de alguma espécie animal ou vegetal. Na região, margeia o Rio Paraíba respeitável mata.
Com o tempo, verificou tratar-se de assunto arraigado no espírito da comunidade. Sentiam arrepios só em falar no tamanho da cobra, seu furor e seus desígnios assassinos. Caetano ria-se por dentro. Educado, não contrariava os velhos moradores, que incutiam nos descendentes o estigma macabroso. Sua mulher se reservava. Não dizia que sim, nem que não. Os dois filhos não olhavam para as bandas enfeitiçadas do rio. Às vezes, preferiam não pescar. Liam, assistiam televisão, conversavam. Talvez a juventude mexesse com eles, pois leve temor balançava suas almas.
Certa feita, Caetano bandeou-se para os lados de Além Paraíba, acima da represa, onde, diziam, pescava-se muito piau. Retornou de fieira vazia.
De volta, uma luz! Havia peixe no tal lugar proibido. Ali não batiam tarrafa ou lançavam anzol, razão da piscosidade, em especial no poço entre as pedras tomadas de ingazeiros.
Esse negócio de superstição é coisa de trouxa! - Pensou, dirigindo-se para a margem direita, justo onde os mais crentes alardeavam encontrar-se o ninho da cobra, seu local de descanso após engolir intrusos. Entre os arvoredos, meio que sobre uma ilha de pedras de todos os tamanhos, sentou-se com seu equipamento de pesca. Vara para um lado, isca para outro, montou o instrumental. Não decorrera meia-hora, abarrotara o samburá. Nem lhe passavam pela cabeça as papagaiadas da vizinhança, sobre o perigo representado pela anaconda. Tanto que, sem pressa, tomou uma folha de bananeira, sobre a qual preparou um dourado para assá-lo sobre a laje de pedra. Nesse momento, soou uma sirene. Caetano não se tocou tratar-se de aviso da casa de máquinas das comportas. As aberturas G e H liberariam água em poucos instantes. Os variados avisos da hidrelétrica no correr do rio alertavam que, tocada a sirene, deveriam deixar o leito do rio e suas margens imediatamente, sob pena de ver periclitarem suas vidas, diante do roldão d'água descendo leito abaixo. Assim foi. Distraído, Caetano só despertou quando o barulho intenso explodiu perto de seus ouvidos, já não dando tempo para nada, senão subir num ingazeiro antigo, agarrar-se em seus galhos e ali ficar, até cessasse o turbilhão assolador. As águas levaram a eito todos os seus pertences. Ficou apenas com a roupa do corpo. "Ah, daqui a pouco a água baixa e saio daqui!" - Pensou.
O tempo escorreu, até que se passasse das dezoito horas. Entrava-se no crepúsculo. Passou-lhe a hipótese de escurecer e as águas não baixarem. Se lesse jornal, teria verificado que chovera muito em São Paulo, no Vale do Paraíba. Nesses casos, são frequentes as manobras na hidrelétrica, às vezes se demorando em reduzir o esgotamento do excesso d'água. Agarrara-se aos tenros galhos; estava nas grimpas àquela altura, totalmente indefeso em relação aos múltiplos perigos, dentre eles, as cobras venenosas que se envolviam na galhadura dos ingazeiros, arrastadas pelas águas das matas das margens. Foi então que sentiu sentiu uma picada na perna, picada ardida, penetrante, estranha. Pensou nas formigas. Qual nada! Fora picado por uma jararaca! Duas pequenas perfurações marcadas a sangue ficaram à vista de Caetano, ainda no lusco-fusco da passagem do dia para a noite. Mas essa agora! Preciso de socorro, senão morrerei envenenado! - Pensou. Gritava, ninguém ouvia. A corredeira ensurdecia.
A noite, agora, era pleno breu. A perna inchou. Brotaram-lhe ínguas. A água mantinha o nível alto. Os braços doíam, pouco se firmando nos galhos balouçantes. Os efeitos do veneno devastavam-no. Caetano perdia a noção das horas. Uma lanterna percorria a margem esquerda. Gritou a todo fôlego, mas foi inútil. As águas revoltas ensurdeciam. Em diante, longe dali, luzinhas do povoado rebrilhavam. Encontrava-se distante da casa de máquinas, numa das curvas do rio. A madrugada ia alta. Apavorado, ele amarrara as pontas da camisa e "se abotoara" num galho grosso, aliviando os braços. "Quando meus filhos amadurecerem, continuarão acreditando na existência da anaconda?" - Imaginava, num misto de cansaço e delírio. Lembrou-se do trato que fizera com o vizinho, para dividir as despesas da cerca. Construiriam, também, um açude para engorda de peixes. Não era coisa difícil.
Parecia que as águas batiam nas pedras e árvores com mais violência. A certa altura, Caetano levou a mão direita aos lábios; sentiu-os formigando. Tratava-se de entorpecimento fruto do veneno. A perna direita, era como se não a tivesse; a esquerda doía, dor aguda, como sendo arrancada do corpo. "O veneno da vadia provoca sensações surreais!" - Esbravejou.
A calça apertava a perna, estrangulando-a. Era o inchaço. O antídoto estava próximo, no posto de saúde. "Se saio daqui, as águas levarão meu corpo para Campos, em direção ao Oceano Atlântico, onde desemboca o Paraíba."- Lucubrou tenso.
De repente, um estrondo de águas rebuliçosas, árvores se partindo, barreiras se rompendo nas margens e pedras se batendo. O mundo vinha abaixo. Sequer deu tempo de gritar. Havia expectativa para tudo, menos para o ocorrido. Uma enorme pedra se desprendera e rolou em direção ao ingazeiro, projetando-se sobre o corpo de Caetano, juntando-o, como num sanduíche, ao tronco da árvore. Não sobrou osso inteiro, alguns espetando a própria árvore.
Ao amanhecer, ao acharem o corpo, depararam-se com os ossos moídos e a carne escurecida, efeito do veneno. A inchação deformara-o completamente.
Um antigo morador observou: " Eis o destino dos descrentes. A anaconda triturou-lhe os ossos, envenenou o corpo. Chegará o dia em que todos obedecerão à serpente guardiã."

terça-feira, 8 de setembro de 2009

EQUÍVOCO

Danilo era comedido na prosa. Confortava-se com o pouco e verdadeiro. Mentira não era com ele; não sabia mentir. Não se sentia bem com balaqueação. Conhecido pelos dotes morais, recebiam-no nas rodas de conversa sem reservas.
Rompido o noivado, Danilo entregou-se ao amargo da melancolia. Falava pouco, restringindo-se a respostas curtas às eventuais indagações. O motivo da tristeza era conhecido.
Numa das poucas saídas noturnas, decidiu tomar uns tragos num bar com música ao vivo, onde encontraria amigos e belas garotas. Sentou-se a um canto e logo se viu numa troca de olhares com bela moça, sentada ao lado de sua mesa. Há muito não sentia tal emoção.
Danilo renovava-se a cada instante, desde logo se imaginando ao lado da novel conquista. Ela, acompanhada de duas outras amigas, resplandecia. Não é difícil saber-se quando uma mulher se disponibiliza a um desconhecido, de pronto, ao tipo do amor à primeira vista.
Mulher bonita, rosto iluminado, seu sorriso mostrava um cordão de pérolas, dentes saudáveis e belos. A cor indefinida dos olhos, entre o verde musgo e o mar proceloso, encantavam-no.
Danilo convidou-a para dançar. Ela aceitou. Após as apresentações de estilo, puseram-se a divagações em torno da noite e do encontro, bem como casualidades comuns naquele tipo de lugar. Algumas esperanças movimentaram-se na alma de Danilo. A bem dizer, havia dois universos de emoções maduras, almas entrelaçadas de mistérios.
Naquela madrugada fugaz, a conversa protraiu-se ao rigor da satisfação recíproca. O encanto cresceu, ao brotarem lembranças de uma terra que lhes era comum, no Alto Uruguai. Agora, olhos nos olhos, assumiam retratos convergentes, sentenciavam princípios e acordavam sobre homens comuns e suas obras.
De forma direta, Danilo mostrava seus sonhos e anseios, traçando as frustrações que o angustiavam, perguntando sobre os rumos do amanhã.
Eram dois mundos inteirados da realidade nua dos sentidos, enquanto a madrugada efêmera corria pelos caminhos dos milênios eternais: inexoravelmente, sem dar chances ao colóquio desejado para a resolução das aflições; a amplidão temporal era só aparência. Se o tempo fosse o pai das soluções, muito se teria resolvido no seio da humanidade, indagava-se Danilo, enquanto os segundos atropelavam os ponteiros do relógio.
Houve, é claro, o tremor da sensação sob a imaginação dos corpos nus, submetidos ao êxtase.
A ambos era comum o sonho de retornar aos trigais, paragens resolutas dos campônios sensíveis. Danilo imaginava-se entregue aos ventos, vivendo as ondas largas dos verdores sob a natureza bonançosa de Campo Novo, Braga, Redentora, Tenente Portela, Humaitá, Coronel Bicaco, São Martinho, Chiapeta, Santo Augusto, Três Passos. Nesse trajetar cheio de esperanças, as mãos nas mãos projetavam desejos incontidos. O coração de Danilo fizera-se salão de festa, indiferente às dores, amarguras e angústias.
Ah, imaginava ele, nada melhor do que a transparência da palavra e da alma! Ia assim nesse enlevo, enquanto os raios da manhã despontavam nas imensidões dos pampas.
No jogo de palavras inteiriças, Danilo tomava-se de enleio sem limites. Tratava-se de bela mulher, egressa de sua cidade natal para ganhar a vida em trabalho honesto na capital. Encontrava-se na cidade de Bagé, chefiando equipe de empresa telefônica, em serviço de captação de usuários e outras atividades.
A claridade do dia encontrou-os no automóvel de Danilo. Já distinguiam a naturalidade que se fazia comum no processo de conquista e encantamento.
Hora de despedida. Construíra-se intimismo irresistível, amor mesclado a sentido de partida, pois a mulher viajaria para Porto Alegre naquele dia. Mas, justo na hora do adeus, Danilo sucumbiu, ao despojar sua alma preocupada diante das incertezas sopesadas pela jovem. Ofereceu-lhe dinheiro! Colocou-se ao dispor do amor nascente, caso dificuldades a afligissem! Foi aí que, resoluta, a jovem se sentiu em posição equivocada, confundida com as mulheres fáceis das noites da Capital. Fora como se Danilo jogasse um balde de água fria sobre os sentimentos nascidos daquele encontro. Um rompimento abateu-se sobre ambos, após explosão irresignada da mulher, que não aceitou as justificativas de Danilo.
Ela se foi. Ele ficou durante bom tempo dentro do carro, em lamentações. Pagava sobre o que jamais pensara; mas sofria pelo que dissera, no mais profundo engano das horas.
Sobre o que ele queria, ah, guardou para sempre em seu coração!
Danilo nunca mais se enamorou de outra mulher.

sábado, 5 de setembro de 2009

ASAS DA ILUSÃO

Havia muito de alucinação no que Altino falava sobre Maria da Penha, a mulher de seus sonhos. Seu corpo fora moldado com extrema perfeição; isso o afligia dia e noite. Corpo de carne e osso que nada devia às musas dos poetas consagrados, às artistas em geral e às lindas sirigaitas das capas das revistas masculinas. Era sangue verdadeiro nas veias da mulher-encanto.
Porém Maria da Penha transformara-se num espectro na vida de Altino. Depois de vários anos, ei-la emergindo dos fundões de sua memória, revigorando o sentido da paixão, como se nunca tivesse desaparecido de seus sentidos, mas apenas dado um descanso à alma.
Maria da Penha, Penha, Peninha, Meu Anjo, Pepê, Pê, sei lá quantos nomes mais enumeraria, tanto o amor e o poder criativo de Altino no tratamento carinhoso à bela mulher.
Durante meses, Maria morou em sua companhia numa casa à beira-mar. Amor mágico, regado a vinho e passeios. Digam o sol e a lua sobre os dois nas areias beges da extensa praia. De súbito, foi-se e não mais voltou. É verdade, nunca mais!
Altino escrevia em prosa e verso sobre a beleza da amante. Suplicava seu retorno.
Seu corpo era mistério escondido num tempo, que ao tempo se lançava entre ânsias de amor. Era a emoção atirada na areia, sereia de encantos morando no mar!
Altino anunciava que o corpo de Maria da Penha era um brinquedo aos seus olhos de sonhos, sonhos paridos da fonte dos êxtases puros. Ele a sentia em desejos ardentes, com os dentes trincados no instante da espera, porque o corpo de Maria da Penha era a floresta, o deserto, o oceano, a festa de luzes ofuscando sua alma.
- Vem, Maria da Penha, junta teu corpo ao meu. Dá vazão à minha libido. Desarrumemos o lençol de areia, enquanto a noite prateada e mágica se faça residência à nossa luxúria!
A trama envolve Altino, leva-o ao fundo do poço, morada dos desencantos. Vivia ao lado de Maria da Penha momentos de engano, olhos cerrados aos duros instantes de ausência.
Altino, por que se submeter a tanto sofrimento?
Era um poeta. Conhecia a composição dos sonhos, sua textura de algodão. Ao baixar a cerração, a realidade desnudava-se inflexível. Era quando Altino indagava sobre onde andaria Maria da Penha, instantes de emoção singela, poemas aos borbotões, razão de viver aflorada, libido em alerta, enquanto jurava ânsias ciganas de ter os caminhos aos pés de seus passos, para procurá-la em todos os lugares do mundo!
Ah, isso faz anos! Ela se foi para sempre, de repente. Aquelas coisas acontecendo no coração da mulher, sem que se explique como ou por quê. Outro amor? Cansaço? Rotina? Desejo de aventura? Sua partida resultou em perplexidade. Havia casos complexos, mas fáceis de esclarecer. Mas para o caso de Altino não havia justificativa. Ela se foi, simplesmente se foi, deixando-o aturdido. Não se curou, porque o vírus manteve-se hibernado durante vários anos. Agora, lamenta todas as ausências, em versos de todos os sentidos. Que coisa sem jeito!
Maria da Penha, esse império de cultura e de beleza, corpo misterioso, construía os poemas sofridos do poeta.
As ondas milenares repetiam seu canto. Altino misturava poções, fazia preces e esperava atendimento às súplicas. Mas, oh!, iludido Altino, há quanto tempo Maria da Penha se foi!
Ao homem não importava a recomendação banal. Sua alma queimava sobre chamas teimosas de amor. Viveria feliz longe das asas da ilusão. A realidade sempre foi muito má para os poetas. Seu universo interior, a imaginação sem limites, oh, ele termina afundando nas trilhas de fuga!
Vamos em frente, Altino! A ti interessa que Maria da Penha ainda exista? Duvido. Fala a verdade!
Ah, esses poemas que se multiplicam na alma dos sonhadores! Como são dolorosos!

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

DECISÃO

Estava difícil. O Homem bebia todas as noites e gritava com a mulher e os filhos. Enquanto o vômito voava dentro do banheiro, excomungavam-no. Era fedentina dos diabos, mistura de torresmo com amendoim, salsichão com salada russa, tudo regado a vinho batizado pelo dono do bar, falsificação sem freios e arreios que, por tostões, viabilizava, além de um baita porre, muitas outras desgraças.
Rosa, filha mais velha, era linda e cobiçada. Os irmãos sofriam com o bate-boca do casal, até que a manhã despontasse. O pai tomava café e rumava para o porto. As crianças, para o colégio. Rosa frequentou escola até os doze anos; para além, faltou-lhe uniforme e material escolar. À decisão de abandonar a escola, não houve resistência, pois ajudava a mãe em casa, que gostava da companhia da filha. Ao seu lado, esquecia os problemas criados pelo marido.
Um dia, o velho sentiu dores no fígado. O médico diagnosticou cirrose hepática! Seu estado levou-o à aposentadoria. Recebia proventos miseráveis; pouco atendiam à subsistência das sete bocas. De tudo por tudo, dependiam daqueles parcos recursos. Rosa resolveu trabalhar. Empregou-se no bazar de um árabe viúvo, residente nos fundos do comércio.
O tempo levou Rosa a se inteirar das condições de vida do patrão. Sozinho, ele preparava suas refeições. Penalizada, Rosa colocou-se ao seu dispor para fazer o almoço. Ele exultou. Não cansava de elogiar a comida. Até engordou! Um dia, sem arreganhos, perguntou a Rosa se queria viver com ele. Ela se espantou. Virou a costa e foi para o balcão. À noite, ao deitar-se, pensou na proposta do homem solito e de razoável condição econômica. Dia seguinte, ele pediu desculpas a Rosa. Reconheceu a ousadia junto a quem tanto o ajudava.
As coisas pioravam na casa de Rosa. A irmã mais nova menstruara. Sequer havia papel higiênico. Usavam lencinhos de roupas velhas. Três moças, eram varais e varais secando dezenas de pecinhas íntimas. A vizinhança olhava com pena. O pai, na bebida, apressava a morte.
Numa segunda-feira, Rosa foi trabalhar com um vestido sensual. Fingindo não ver o árabe, acertava o sutiã com um dos seios à mostra. De repente, sentiu-o às costas, ofegante.
- Perdoa-me, Rosa, mas não resisti! É lindo!
- Oh, que imprudência! Por que não fui ao banheiro? – Disse a jovem comerciária.
- Desculpa! Eu é que não podia estar aqui! Mas gosto muito de você!
Lágrimas nos olhos, manifestando pundonor evidentemente dissimulado para aquele momento, levantou a cabeça devagar e perguntou ao constrangido patrão:
- Verdade?
- Sim. Você tem algum compromisso amoroso?
- Não tenho. Compromisso de pobre é lutar pela sobrevivência.
- Posso lhe dar o que quiser, sabe disso.
- Minha idade... Tenho dezessete anos. Sou menor e virgem.
- O que tem isso? O amor não escolhe idade.
Ele precisava de alguém. Rosa sabia disso. Em diante, muita coisa mudou na vida do solitário comerciante. Passou a andar bem vestido, cabelo aprumado, barba feita. Acontece que a diferença de idade era de quarenta anos!
Havia choro. Rosa ansiava melhor destino para seu corpo, um jovem esposo. Mas esperar essa realidade seria jogo arriscado. As emoções transluziam tristezas e mágoas. Sob sua ótica, homens e mulheres eram sombras e sonhos perdidos; transes, revoltas e vazios.
Pelas ruas, sentia o triste silêncio dos seres e das coisas; porém, não receava diante dos escuros. Leve sensação tomava-a de vez em quando, diante dos gritos interiores, indicando presságios. Rosa conhecia a gente sofrida, não curada; no entanto, não se entregava. Eram pessoas peregrinando ao longo das estradas, rumo às emboscadas da vida. Nas calçadas, sobravam lamúrias, notícias de agruras, amarguras inominadas, vontades sobre mortalhas, caminhos sem volta, gargantas sem voz. Mãos estendidas traziam
remédios tardios; a reza já não curava pecados; a voz da promessa era cantiga nojenta; o gosto de sangue explodia nas bocas: era a dura sentença dos corpos marcados. Navalhas afundavam na carne trêmula, decreto fatal carcomendo esperanças, fabricando manchetes para o dia seguinte, constituindo-se no rubro limite entre a dor e a tragédia. Os golpes desferidos pelo tempo curvavam idades sem volta, forjando disfarces no espírito-pranto, à luz dos sorrisos e gestos engodatórios.
Rosa se envolvera em brumas. Fazia-se necessária uma decisão. Não ficaria inerme. Tomaria um norte, fatal ou aberto ao amor e à vida. Qual fosse o caminho, porém, todos a levariam a algum tipo de morte. Mas não importava, diante do que via ao chegar em casa. A mãe em desespero; o pai agarrado à aguardente; os irmãos ao deus-dará.
Não demorou, Rosa tomou a frente das decisões:
- Creusa e Cremilda estão empregadas. Mamãe, em uma semana mudaremos desta casa. Pedro e Nataliel estudarão e trabalharão. Zezinho ajudará na casa, até se ajeitar. Eu e o patrão casaremos.
O pai, ouvidas as ordens da filha, gritou do corredor:
- Quem manda aqui sou eu! Ninguém vai a lugar nenhum! Você não casará com aquele turco de merda, velho nojento! Quero mais para minha filha!
Rosa virou-se para o pai e disse:
- Esquecia, papai. O senhor será internado no Hospital de Caridade. Curaremos a bebedeira e a cirrose hepática. O resto que se falar dentro desta casa é baboseira! Já sofri as mazelas possíveis! Agora é viver! Preparar o futuro, o meu e o de vocês. Tenho dito!
Dali, foi para o quarto chorar.

SEM PEIAS

Zé Antônio biritava a noite inteira. Não resistia a uma porta de bar. Ao depois, perambulava madrugada a dentro, cantando velhas meretrizes e fantasmas. A barba por fazer dava-lhe ar misterioso, mas de gente relaxada, sem destino, sem família, ao modelo dos que andavam por andar, andarilhando sempre, mas sem tempo de chegar. Mantinha-se com amiudados recursos provindos da previdência estatal, que mal se arrastavam até o quinto dia do mês.
Desprezava a idéia de aniquilar-se sob as regras que atavam os pés das pessoas às camas, para ensinar modos convenientes da civilização envernizada. Queria-se assim: birita, mulheres e noite, sem companheiro chato aporrinhando com histórias sem graça de culpas e pecados. Para esses, dava-se como tímido e saía fora.
No fundo, matava-se de risos ao seu jeito particular de observar as pessoas. Eram os rios caudalosos e subterrâneos dando forças à sua existência. A vida e seus penduricalhos representavam fonte inexaurível de humor e ironia. Doutra banda, o presente era seu porto real. O futuro não mexia com seus sentimentos.
Quanto ao passado, dizia que as lembranças estabeleciam tentativas dolorosas de saudades. Zé Antônio ria dessas tramas enlaçadoras de gente como ele, geradoras de tristeza nas esquinas de cães, vagabundos e sonhos.
Ele não ligava para o fato de ter-se acostumado à lida dos fracassos, às vitórias efêmeras, aos tombos. Sabia que o homem nascera para esse circo, onde viveria junto às feras e na corda bamba. Entre ser canalha ou bom moço, preferia o colarinho largo dos picadeiros.
Camisas e calças de brim; olhos de ferro; o coração, uma coisa qualquer que não se abatia nunca. Ao enfrentar as sucessivas fronteiras de barro cru, pressentia o esvaecimento das conquistas. Assim, tocar para a frente os passos, sem esperar algo especial, tampouco o abismo. Era sua sina ser assim.
Não frutificavam desejos impossíveis; exilara as utopias. Destas, ele conhecia as manhas. Despistava a memória, para não recordar prazeres realizados. Detestava sustos de reencontros. Cabelos brancos e rugas faziam parte do processo. E pronto!
O que valia para Zé Antônio era o agora sem peias ou mistérios, fosse no bar dos flagelos, ou no das imaginações, ou sobre a meretriz sem identidade garantindo-lhe êxtase e esquecimento para instante seguinte.
Pensar no amanhã ou no ontem era-lhe avesso, como o era registrar o apito do guarda, o latidos da cadela no cio, o choro da mulher estranha que lhe relaxara as tensões.
Indiferente aos martírios, imaginava a vida uma longa estrada - que por alguma circunstância poderia ser encurtada -, onde fatos e acontecimentos brotavam inexoravelmente às margens, materializando-se à passagem do indivíduo. Situações boas ou ruins, elas aconteciam durante a jornada, independentemente de qualquer protesto ou desejo. Nesse trânsito estranho, o engarrafamento era fato comum, endoidecendo os açodados.
Não era um trouxa. Sabia despistar sofrimentos. Pouco se enrodilhava nas rmadilhas. O amor, por exemplo, jamais fora proposta de vida ou morte.
Zé Antonio despediu-se da existência, quando sua própria natureza decretou-lhe inteira consciência das coisas.