Pedrinho determinara-se a descobrir a fórmula da felicidade, algo que o fizesse tão feliz como os meninos residentes nos bairros ricos.
Era muito pobre. Não conhecera o pai. A mãe sustentava quatro filhos com lavação de roupa. Não bastasse, a avó materna residia junto à família no barraco apertado. Frequentara os três primeiros anos do curso primário. Embora gratuito o ensino, havia uniforme, sapatos, alimentação, passagem de ônibus, ao mesmo tempo em que se tratava do filho mais velho, muito requisitado na ausência da mãe. Afinal, sua avó vivia entrevada numa cama, doente, quase cega. Pedrinho tomava conta dos irmãos menores e alcançava remédios à avó. Havia, pois, muitos problemas impedindo-o de continuar os estudos. Resolveu sair de casa.
Ele sonhava muito. Não compreendia como havia meninos bem vestidos, tênis de marca, boa alimentação, belas bicicletas, cinemas e passeios, desejos atendidos, enquanto outros passavam por necessidades, inclusive fome. Os privilegiados tinham tudo o que queriam, vida de príncipes.Foi o desejo de conquistar essas maravilhas que impulsionou Pedrinho a sair de casa. Descobriria o caminho da felicidade. Já no primeiro dia, constatou que, sem dinheiro, não usufruiria as coisas boas da vida. O coitado estava sem vintém, não tinha sequer para comprar um pão. Começara a provar os amargos dercorrentes da decisão de sair de casa. Lá, ao menos, sua mãe conseguia o mínimo para não deixar a família passar fome. Sua avó, num golpe de sorte, alcançara uma pensão. Recebia um salário-mínimo mensal. Seu marido fora operário naval e trabalhara quarenta e tantos anos com carteira assinada. Mas o que fezia o garoto, agora longe de casa?
Enturmado com alguns flanelinhas, sobrevivia dos trocados recebidos dos motoristas nos estacionamentos da via pública. Por mais que tentasse, não vislumbrava como atingir os objetivos. Na lida diária, observava que não era só ele o desprotegido pela sorte. Centenas, milhares de garotos perambulavam pelas ruas, mal vestidos e com fome, dormindo sob pontes, viadutos e calçadas, vivendo da caridade alheia. Alguns não tinham sequer família, situação pior que a sua. Contudo, os sonhos borbulhavam: roupas novas, casa com televisão, geladeira, máquina de lavar roupa e tudo o mais que pudesse adquirir para dar conforto à mãe. Compraria computador, iria ao parque de diversões e ao circo. Não esqueceria da avó, que seria atendida numa pomposa clínica, supervisionada por bons médicos. Automóvel? Ah, claro que teria um! De preferência vermelho! No natal, um belo pinheirinho cheio de luzes piscando, cercado de presentes, bolas de futebol e bicicletas para os irmãos; vestidos, blusas e belas sandálias para a mãe e para a avó; presunto, frutas, bolos e outras guloseimas natalinas... Assim vivia o garoto, cheio de imaginação e vontade.
Prometera a si mesmo que só voltaria para casa quando descobrisse a fórmula de realizar os desejos. Entretanto, a cada dia se decepcionava com o mundo, pois encontrava as portas fechadas aos seus anseios. Não conseguia transpor a vida de garoto de rua, cujos ganhos como flanelinha mal davam para atender à sua necessidade alimentar. Dormia sob marquises em companhia de outros meninos, sobre jornais e papelão.
Certa noite, pouco depois de se deitar, teve uma visão fantástica. Uma grande arca pousava sob as águas do mar, proximamente à praia. Estava abarrotada de jóias, diamantes, rubis, esmeraldas e dobrões de ouro. A visão levava-o a um lugar já conhecido, uma enorme pedra a cerca de vinte metros da areia, na praia de Copacabana. No silêncio da madrugada, aquela visão, de tão viva, real e intensa, despertou-o à realidade. Lançou os olhos à escuridão das ruas, impressionado com o que terminara de lhe acontecer. Seria uma mensagem vinda dos céus? - Imaginou. Agradeceu a Deus e rezou, como fazia sempre antes de dormir. Virou-se para o lado e logo pegou no sono. Ainda bem não amanhecera, partiu para o local indicado na visão. Ao chegar defronte à enorme pedra, sentou-se na areia. Finalmente, estava próximo de atingir seus objetivos. Sentiu renovadas as esperanças de vida. Não se demorou muito sentado. Aos primeiros raios de sol, tirou a camisa e mergulhou em direção ao tesouro. Próximo a pedra, submergiu e nadou ao encontro da arca. As águas estavam claras, muito claras, como nunca vira. Em braçadas lentas, foi-se ao fundo de areias brancas. Sua mãe não mais lavaria roupas para fora. Sua avó restabeleceria a visão, removendo a catarata. Seus irmãos estudariam, ganhariam brinquedos e não passariam fome. Atenderia ao sonho materno: seria doutor! Enquanto a imaginação tomava-lhe a mente, o tempo passava. Os olhos vasculhadores percorriam cada trecho submarino; seu corpo bailava por dentre cardumes multicoloridos. Os peixes pareciam velhos amigos a acompanhá-lo na busca ao tesouro. Sob as águas, imperava silêncio absoluto. A expectativa transmitia-lhe emoção sedutora. De repente, eis a arca! Era enorme e antiga, parecida com as dos filmes de pirata. Seu coração disparara de felicidade. Aproximou-se e abriu-a. Durante alguns instantes, ficou estático, deslumbrado com a quantidade e o brilho das jóias e das pedras preciosas. Tudo como lhe aparecera na visão: diamantes, pérolas, rubis e moedas de ouro. Deus atendera suas preces. Doravante, viveria como os meninos dos bairros rico, que possuíam tudo o que desejavam. Diante da arca, lançou as mãozinhas no seu interior e trouxe um lindo colar com um pingente incrustado de belas gemas. Suspendeu-o à altura dos olhos, imaginando-o no pescoço de sua mãe. Pedrinho era só felicidade!
Naquele mesmo instante, enquanto a manhã enchia-se de bela luminosidade, uma lágrima escorria no rosto de sua mãe. Para ela, não lhe era estranha a razão de seus pressentimentos. Com o tempo, certificou-se da desgraça que se abatera sobre Pedrinho. Para sua infelicidade, os demais filhos tiveram visões parecidas. Todos foram protagonistas inconscientes de um final trágico para suas vidas.
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
RECORDAÇÕES
Passava da meia-noite. Manchas argênteas esparramavam-se na sala. Eram folhas, galhos, símbolos estranhos, figuras de chumbo espalhadas no chão e na parede, resultantes do luar rompendo nuvens pressagiosas.
Nunca houve atraso tão elástico. Afinal, Madalena confirmara a visita.
O martírio recrudescia a cada minuto. Lá fora, um que outro carro aligeirava-se barulhento. De repente, um táxi defronte ao edifício! Seria ela? Não, apenas um bêbado resmungando por um amor ausente. Em diante, nenhum outro veículo estacionou por dali.
Ah, espera tensa, ruindades registrando sentimentos amargos!
Havia certeza de sua chegada. Traria balas de coco para o filme das 22 horas. Porém, a frustração desajeitava-me, cutucando-me forte com o correr das horas.
Nos instantes do silêncio dilatado, imaginei que os carros não passariam mais; cães e gatos sossegariam; eu me entregaria aos zumbidos junto ao travesseiro. Logo, porém, uma buzina gritava, latidos ecoavam, transeuntes conversavam e felinos atendiam à libido.
Meus olhos grudavam no relógio, sentindo a lerdeza dos segundos na alma dos que esperavam com sofreguidão. Os relógios são perversos com os solitários.
O que fazia Madalena naquela noite de ansiedades? Escolhera, tantos anos depois, reservar-se aos meus sentimentos para organizar dúvidas em minha alma? Faria isso comigo, seu dileto companheiro? Não, não faria! Ela não era uma jovem encantada com firulas do coração, para brincar com relações maduras. Seria recaída. Ademais, ela conhecia minha repulsa a esse tipo de comportamento. Dizia-lhe que a idade não comportava certos jogos da alma.
No fundo, acreditava que Madalena não tinha a exata compreensão da falta que me fazia. Culpa minha, qum sabe, mas meu jeito era assim. Não demonstrava minhas intensidades amorosas. Coisa de machismo besta de que me arrependo muito, mas que me acompanha desde rapazote. Se me comportasse diferente, ela pensaria que eu não conseguia viver sozinho, isto é, que ela integrava meu mundo. Eu evitava esse entendimento, não sei porquê.
Fazia-me durão; minha realidade interior não emergia induvidosa do meu gesto e da minha palavra, quando Madalena penetrava meu pequeno universo, sorriso aberto e franco, trazendo luz e alegria ao meu ambiente, seduzindo-me. Como fui tolo durante esses anos!
Jamais exteriorizei minha felicidade. Fui uma besta! Certos homens aguardam o segundo tempo para arrependimentos e mudanças. Que ilusão!
Para ela, fui frio, sem emoções, indiferente à palavra e ao carinho. Quiçá, um ingrato! Na verdade, meu interior não funcionava assim. Ela era a única amiga, meu porto e verdadeiro amor. Com a idade, a memória atulhou-se de lembranças sobre fatos e acontecimentos marcantes.
Então, já não era mais moço. Meu relacionamento traduzia-se por sentimentos maduros, alguns mais resistentes que o próprio amor.
Fazia-me falta o companheirismo. Pouco vivíamos na relação de amantes. Sublimáramos o sexo em vivências múltiplas e compensações alicientes. Com a idade, é resoluta a exigência de ter-se alguém ao lado, para transcendentalizar o amargo imposto pela solidão. Chega o momento de reverenciar a vida em tom de experiência. Só isso. Nesse trânsito, são poucas as alternativas, sem esquecer do perverso egoísmo embrutecedor da alma. Mínimos detalhes transformam-se em problemas enormes. Alguns sonhos não se realizam por picuinhas alimentadas contra o parceiro. Sofrerão ambos, devido às posições malbaratadas.
Na juventude, as portas se abrem às aventuras. Mas me reservava e não mudaria, no que tange à forma de ser e ver o mundo, em especial o jeito de conviver com Madalena. Não possuía o dom de mudar do dia para a noite. Jamais extravasava. Ela não me sentia de maneira diversa, senão da forma como eu era e sempre fora. Seria estranho para Madalena, isto sim, a mudança repentina do meu caráter. No fundo, eu acreditava no seu gosto por certas peculiaridades do meu conduzir. Não o fosse, ela teria me abandonado há tempo. Ao demais, nunca imaginei reformar minha vida, com simples alteração de personalidade. A realidade mostrava minha alma sedimentada, e Madalena, mulher inteligente, conhecia esse particular.
Naquele dia, se chegasse, mesmo tarde, eu passaria um mata-borrão nas minhas lamúrias. Madalena constituía-se na jóia mais preciosa da minha vida. Mas ela não chegava.
Os ponteiros do relógio transtornavam-me; o menor tripudiava-me sem freios, ao emplacar outra hora de desilusão. Que noite vazia! Madalena nunca endurecera o jogo; na hora marcada, ei-la chupando bala de tamarindo ou de mel. Ao abrir a porta, estampava largo sorriso de alegria. Por que, ao menos, não telefonou?
A decepção trouxe a insônia. Passeei com os olhos sobre a cômoda, o guarda-roupa, o criado mudo. Os objetos levavam-me ao passado. Perquiria a razão das antigalhas, mimos que, naquela madrugada, faziam-me sofrer. Eram lembranças ardendo na alma. Bibelôs, jarrinhas, flores secas, agendas antigas, porta-retratos, cigarreiras, uma infinidade de presentes recebidos de Madalena, ao chegar de seus passeios. Sempre lembrava de mim.
Aqueles objetos transmudaram-se em mágoas naquela madrugada de ausência. Uma faquinha de madeira, presente de minha avó para cortar papel, quando eu era criança, parecia penetrar-me, lancinando a alma; levava-me à infância, às ruas antigas, aos meus pais, irmãos e sobrinhos, às festas de aniversário na casa materna. Anatematizei todos os objetos; apertavam-me o coração, ao invés de trazer felicidade. Chorei feito criança, um homem de cabelos encanecidos. E os quadros nas paredes? Desalentador!
Madalena nunca faltara sem explicação. Naquela noite, senti o quanto era penoso esperar em vão uma pessoa querida. Mas fechei os olhos.
Pela manhã, tomei café e acendi o cigarro. Reuniria o badulaques que jogaria no lixo! Depois, sairia pelas ruas como cachorro sem dono, até reencontrar outro motivo para sorrir. Minhas cargas pesavam. Havia desalento. Se Madalena troçava, eu pedia que não fosse comigo.
Por volta das oito horas, tocou a campainha. Chegara a triste notícia de que Madalena morrera! Oh, que desgraça! Como pensara mal de minha amiga, minha amada! Eu que imaginara a ausência noturna como forma de fazer-me figa! Que imbecil! Madalena nunca usaria tal recurso, comum aos adolescentes, para perturbar meus sentidos.
Agora chorei sua morte como uma criança. Aos oitenta anos, dizem, não há mais lágrimas. Ledo engano. Chorei por Madalena durante muitas noites, recordando a juventude, a paixão, a amizade e o companheirismo, saudoso das balas de coco, do licor de jenipapo e dos causos antigos que contávamos um atrás do outro. Era a solidão de verdade.
Nos seus setenta e oito anos, Madalena trazia um amor cheio de vida. Isso a empolgava. Morreria apaixonada, dizia. Justificava amor tão duradouro no fato de não morarmos juntos. Ah, Madalena, por que pensavas assim? Um dia cederias, e nem por isso deixarias de me amar!
Ainda pela manhã, reuni os objetos, como me propusera na noite anterior objetivando vingança. Só que não os joguei ao lixo. Retirei a poeira e os recoloquei em seus lugares. A caixinha de música, presenteada há mais de cinquenta anos, levei-a para conserto.
Em diante, meu mundo existe em função de lembranças. Não necessito sonhar com outra mulher. Seria demais para mim!
sábado, 12 de setembro de 2009
AMOR INTRUSO
Uma ânsia de amor profundo abraçou a alma de Dorvalino, rompendo resistências, ganhando-o por inteiro. Não havia lugar onde não se manifestasse: em casa, nas ruas, no mercado. Dorvalino era um sítio tomado em estratégia guerreira: sucumbido, entregue. Coisa de cinquentão caído por ninfeta. Seus suspiros davam na pinta, mas ninguém comentava. Ruim com ele, pior sem ele, dizia a mulher aos filhos, quando via o marido sonhando sob a jaqueira.
Conscientizara-se de uma luta interior intensa, flagelo de canções de abandono, forçando o poeta ao rigor dos abrolhos. Dorvalino poeta? Até isso! Escrevia suas linhas piegas, cheio de dúvidas sobre o futuro. Coisa de poeta encasquetado por amante esfogueada.
Mas Dorvalino era dos Souza Araripe Ferrão das Cruzes, gente resistente do sul da Bahia, praqueles lados de Teixeira de Freitas, onde homem que se lastimava à-toa, inclusive por mulher, era tachado de fresco.
Eta, gente! Como pensar assim, se alma é coisa que nem mulher nem homem dominam? Ah, aquela invasão do amor, dolorida e resistente! Fazer o quê para livrar-me e viver como antes? - Assim Dorvalino reagia, porque entender a cabeça daquela gente, impossível!
Recorrendo à bebida, frustrava-se. Os impulsos acendiam-se, emergindo desejo de busca. Mas não buscava; havia dia e hora para encontro. Compromissara-se como o Papa.
Safada, a ânsia sorrateira e sem tamanho, marcada ao ferrete dos sonhos, tomou-lhe a alma de assalto, usucapindo-a ponto a ponto. É claro que tudo acontece, quando se encontra a porteira aberta. Dorvalino era mais viciado em garota nova que raposa em galinheiro aberto.
Não era homem novo. Encontrava-se na perigosa meia-idade do leão, onde o camarada se constrange só em pensar numa relação extraconjugal. Imagine-se a situação em que se metera, envolvido até o gogó com uma ninfeta de dezesseis anos, Lolita a transgredir-lhe princípios, todos eles, até os penais! Ao fim, praticava escancarada corrupção de menores, cuja sanção faria o pecador mofar na penitenciária. Mas Dorvalino sequer sabia de tal tipificação no Estatuto Penal. Passara a vida numa fábrica de tecido lubrificando engrenagens e olhando as pernas das operárias. Aposentado, foi para casa aporrinhar a mulher e os filhos, com surpreendentes novidades domésticas.
Estudava uma forma de diminuir as chamas do amor. Noites inteiras envolvia-se naquela entrega, tal adolescente apaixonado por colega de escola. Sua dor geraria frutos úteis no dia seguinte da espera, imaginava. Encontraria uma saída honrosa.
Como sofria! Um sentimento resistente alojara-se no fundo da alma. O enredo amoroso fustigava-o. Fazer o quê? Quanto mais lutava, mais se atolava, enredado nas angústias.
A linda menina, seios de pera, olhos de jabuticaba e mãos de veludo, reinava absoluta nas suas fantasias. Alma em frangalhos? Talvez sim, talvez não. Havia uma confusão dos diabos a transtornar-lhe os sentidos. Pensava nas filhas maiores e nos dois netos que o filho vadio arrumara! Quanto à esposa, essa não entrava no jogo das culpas amontoadas. De jeito algum!
O pungente amor intruso dava-lhe poucas respostas sobre a ninfeta. Atendendo as aparências, Fátima namorava um garotão em casa, duas vezes por semana. Inclusive, Dorvalino sabia que o sortudo era cheio de gás. Ah, aqueles lábios de mel, aquela pele de pêssego! Aquelas coxas de anjo! Meu Deus do céu, tudo isso nas mãos daquele galinho novo!
O amante tomava-se de desassossego, mas Fátima lhe garantia dureza com o namorado, a quem dizia que não a despertasse, pois pretendia casar-se virgem. Beijar era o máximo permitido ao garotão, mesmo assim beijo de cinema, sem língua e sentimento. E, claro, algumas bolinações em zonas pouco erógenas. Ela se determinara a não dar muita chance à libido. As explicações de Fátima aliviavam-no.
Mais pensava na jovem, menos admitia a idéia de dividi-la. A mãe, uma tonta; o pai, um alcoólatra. Quem vigiava as mãos bobas do namorado? Passou a duvidar de Fátima. Ela era de responder "não" duas vezes, ao lhe coçar as intimidades. Que dor danada! - Suspirava Dorvalino, ao lado da esposa assistindo à novela das sete.
Tudo seria menos doloroso, não houvesse obstáculos impedindo Dorvalino de ver Fátima com mais frequência. Eram a mulher, os filhos e os netos grudados em seu pé, mais a falta crônica de dinheiro; uma porção de besteiras misturadas a coisas importantes interrompendo seu caminho rumo à amada. O tal namorado atrapalhava uma barbaridade! Aposentado, não parava um instante: era o chuveiro queimado, a tomada de energia com defeito, a caixa de gordura entupida, enfim, era sempre Dorvalino para salvar a pátria.
Sobrava-lhe a magra segunda-feira para apanhar Fátima na porta do colégio. Dali, iam ao cinema, depois comiam pizza. Esbaldava-se ao lado de seu amor.
Ela vibrava com os carinhos de Dorvalino. Era experiente, conhecia de tudo, dos beijos às bolinações. Ela se deliciava! Não contestava as mentiras do amante, tangente à alegada separação conjugal e ao fato de não ter filhos. Não ameaçaria a felicidade do homem que lhe dava prazer, colocando em perigo momentos de pura emoção. Embora nova, sabia que, na idade de Dorvalino, pressões sobre um coração apaixonado era enfarto na certa. Ao demais, sua companhia era preciosa na hidromassagem do motel. Virava criança, de tão feliz.
Nem tudo que pensa e se mexe na face da terra permanece vivo e inteiro para sempre. A esposa de Dorvalino saía aos domingos com os filhos, genros e netos. Passava o dia numa das praias de São Gonçalo, no Estado do Rio, fosse na Praia do Focinho do Porco, na Praia da Luz ou na Praia de São João. Num desses domingos, as coincidências marcaram encontro fatal.
Fátima não aceitava convite do namorado para frequentar as praias oceânicas de Niterói, tampouco as urbanas. Receava encontrar Dorvalino. Ao falar em praia, Fátima desviava o roteiro para São Gonçalo. Só faltou comunicação com o amante, pois Dorvalino não imaginaria seu amor por aquelas bandas; tratavam-se de praias pouco frequentadas, devido à lama e à sujeira. Localizavam-se no saco da Baía da Guanabara. Até feto boiava naquelas águas.
O pior aconteceu ao meio-dia, quando aquele mulherão caminhava pelas areias da Praia da Luz, trajando sumaríssimo biquíni, cheia de satisfação. Afinal, vinha das bandas da Praia de São João, lugar solitário e afrodisíaco, segundo antigos moradores do lugar.
De repente, os olhos da sereia bateram numa roda debaixo de uma árvore, onde se destacava o chefe da família: Dorvalino, sem camisa, vestindo enorme calção amarelo repintado de florzinhas! Abraçava a esposa, mulher de cinquenta e tantos, mas aparentando sessenta e mais alguns, desleixada de corpo e alma, usuária de perereca um tanto frouxa na arcada dentária superior. Era uma dona de casa comum, acompanhada do marido, netos, genros e noras. Trajava maiô de bolinhas dos anos sessenta.
Sobre a toalha estendida na grama, frangos assados com farofa. Um isopor trazia cerveja e refresco. Junto a Dorvalino, um litro de pinga chegava à metade.
Fátima enrubesceu, ao ver Dorvalino enaltecendo as qualidades da mulher, da mãe e da avó! A amante retornou, passando pelo mesmo local. Foi quando Dorvalino flagrou sua musa abraçada ao namorado, a caminho da Praia de São João. Dorvalino conhecia a fama da praia. Logo encerrou a conversa, tomando uma talagada da pinga. Ninguém entendeu seu silêncio.
Naquela noite, levaram-no ao Pronto Socorro Municipal para debelar uma falta de ar crônica. Já fazia efeito uma dúzia de pílulas, algumas sob a língua. Foi quando sentiu sair de dentro de seu corpo aquela armação amorosa que o aturdia. Fatinha se distanciava.
Pela manhã, fios pelo corpo, soro dependurado, agulha na veia, estonteado, acordou na UTI, sem saber das horas. Olhou para os lados e, calmo, disse para si mesmo, tomado de orgulho: "Sou outro homem! Agora, para ganhar minha alma, tem que pagar pedágio! Me chamo Dorvalino de Souza Araripe Ferrão das Cruzes. E Deus me livre cair noutra de amor!"
O TEXTO BÍBLICO
Nos confins do Ceará, Veneraldo, Dorcelina e seis filhos sobreviviam da agricultura. Fazia meses que não chovia. Da última precipitação, não restara sequer a lembrança.
Veneraldo passava o dia pensando no seguinte, olhos no crepúsculo pressagioso, pés sobre o solo esturricado. Não havia pior miséria, do que ver os filhos e a mulher famintos, transformados em chocalhos de ossos vivos.
Dia sim, dia não, trovejava ao entardecer nos fundões do leste, onde nuvens pesadas alegravam a alma. Era só promessa. Noticiando chuva, as cigarras estardalhaçavam seu canto. Era alarme falso. Também os insetos deliravam ao rigor da canícula perversa. Veneraldo acreditava no coaxar da saparia. Entretanto, onde sapo, onde brejo, se tudo virara um só sequeiro? Manhã seguinte, o sol estendia seu manto causticante sobre os homens, sobre as plantas, sobre a terra e as ilusões.
Certa tarde, Dorcelina não retornou da cacimba. Pai e filhos caminharam em procissão de reza pura durante horas, na crença de que a mulher se acometera de algum mal. Que nada! Do que ouviram, Dorcelina abandonara a família na garupa do jegue de Zé Fadinho, em direção a um pau-de-arara destinado à cidade grande. Frustrados, retornaram praguejando o mundo. Fazer o quê, senão excomungar a desonrada desertora?- Pensara Veneraldo, constrangido diante dos filhos, imaginando como viver sem as costelas da mulher. Os dias passaram. Só o mandacaru mantinha-se de pé nos arredores do casebre.
Numa noite de lua cheia, as crianças cantavam modinhas. Desajeitadas, cirandavam e riam. Ao fim, recolheram-se. Veneraldo comoveu-se. Não lhe passara a idéia de que tamanha miséria concedesse espaço ao canto, ao riso, à felicidade. Resolveu procurar depressa uma solução. Sentira o quão dificultoso fora às crianças realizar simples dança de roda. Não sofreriam mais. A subnutrição fazia e desfazia de seus corpos esquálidos. Não mais comeriam calangos e ratos, mesmo porque estes já rareavam no estéril cenário da seca. Tampouco saciariam a sede nas águas salobras, turvas e fedorentas das terras do Genivaldo da Otília, que anunciara intenção de botar preço nas latas de vinte litros. Fugir? Para onde? Veneraldo rompeu a noite lavrando projetos. Olhava para o céu, rezava e pedia solução. Até que deu um estalo! Sem mulher, sem chuva e sem saída, a morte seria a melhor dádiva. As crianças não se importariam de ir para o céu mais cedo. Seria a salvação, pensou, diante dos poucos pecados apurados durante a vida.
Pela manhã, convocou as crianças para dizer-lhes que a solução seria procurar refúgio no céu. Lá encontrariam o mínimo para vencer a eternidade: farinha de mandioca, rapadura e água limpa. Orozimbo, o menor, lambeu os beiços; Serena torceu-os, com ares de dúvida; Querubim manteve-se estático, olhos fixos no rosto do pai, imaginando a fantástica viagem divina; Evanildo coçou o queixo, achando excelente a saída; César idealizou viajar para a Capital, onde, segundo diziam, jogavam leite e mel nas lixeiras. Veneraldo afirmou, porém, que a morada do capeta era justo na Capital, ao que César logo anuiu. Marinalva, a mais velha, com 13 anos, detestou a opção paterna; contrariava ensinamentos bíblicos. Passavam por uma provação e, se tentassem contra a vida, o destino não seria o paraíso celestial, mas os caldeirões do inferno. O pai e os irmãos olharam-na surpresos, pois Marinalva não se dava bem com as orações. O pai a obrigava à leitura de trechos da Bíblia, por ser a única alfabetizada. Ela disse, ainda, encontrar-se no livro sagrado a maldição pesando sobre os que põem cobro à vida: Deus os mandaria de volta à Terra em forma de bichos. Veneraldo pediu que ela mostrasse onde estava a prescrição do castigo. Marinalva folheou o livro, parou numa página e leu: "Aquele que desistir voluntariamente de viver, pretendendo as delícias do paraíso, encontrará as portas do céu fechadas, retornando à Terra em forma de bicho". Foi o bastante para desistirem da idéia do suicídio. De repente, trovejou forte; Marinalva alertou ser mandado de Deus, renovando as esperanças dos descrentes. Veneraldo sentiu arrepios; àquela hora do dia, não era comum trovejar. Ao demais, o estrondo se dera no momento imediato à leitura do trecho bíblico. Marinalva fechou a Bíblia e se aquietou em reservada satisfação. Sucumbira o projeto absurdo do pai!
Daquele dia, decorreram quatro meses. Veneraldo, até ali, enterrara cinco filhos, todos mortos de inanição. Agora, Marinalva enterraria o pai que morrera de fome, tristeza e desesperança. Não suportou o suplício. Sepultado, ela se sentou na soleira da porta e chorou. Convenceu-se de que o falso texto bíblico lido ao pai e irmãos continha verdadeira e severa sentença. Mas naquele momento seu descortino não alcançava solução diversa da indicada pelo sofrido homem.
Já era noite. Um gemido ecoou pelo descampado sertanejo. Uma velha faca, usada para cortar cactos, alimento que lhes restara na lavoura da miséria, rompera o coração da jovem.
Dia seguinte, enquanto chovia torrencialmente, uma cascavel refugiava-se na desolada tapera, junto ao corpo da menina-moça.
CAÇA AO FRANGO
Domingo, André comeria galinha ao molho pardo. No sábado, foi ao abatedouro com a esposa. O atendente colocou-os à vontade na escolha da ave. Num amplo galpão, onde centenas delas se alvoroçavam, André apontou para uma penosa bem gorda, logo atingida pelo puçá preso a um cabo de vassoura. Nesse momento, de inopino, André avançou galinheiro adentro atrás de um frangote chegado a carijó. Seu gesto subitâneo colocou as aves em polvorosa. Sua mulher, o atendente e os fregueses espantaram-se. O homem enlouqueceu? - Pensaram.
- Quero aquele frango pintado!- Gritou ele, atrás do ágil galináceo.
A confusão alertou o dono do estabelecimento. Ninguém explicava o comportamento de André. Cansado, pediu ajuda à mulher.
- Já escolhi a nossa galinha, André!
- Levamos a galinha e o frango! - Respondeu ele.
- Não há necessidade, amorzinho.
- Não discuta! Pare de falar e me ajude a pegar esse desgraçado!
A coisa ficou nebulosa. André parecia enraivecido. 'Desgraçado' passou a ser elogio.
Num dado momento, ele se confundiu. Apareceu outro frango igual ao perseguido. Deu meia parada e pediu à esposa para não deixar passar nenhum tobiano.
- Meu bem, tobiano é cavalo com manchas brancas sobre pêlo avermelhado ou escuro.
- Dá no mesmo, Joana. Quero os frangos pretos pintados de branco, tipo carijó falsificado.
Em diante, todos ajudaram, aprisionando quatro frangos pretos com pintas brancas.
- Levarei os quatro, mais a galinha.
- Meu bem, o que deu em você?
- Depois falamos! Não importune. Em casa, eu explico.
- Mato os quatro? - Perguntou o dono do abatedouro.
- Não, não. Só a galinha. Reserve o sangue, pois será à cabidela. Levarei os frangos para criar. Agrada-me o colorido de suas penas.
Os fregueses entreolharam-se, reprovando o péssimo gosto de André.
Quase num murmúrio, sua mulher perguntou:
- Como criaremos frangos em apartamento?
Rispidamente, porém baixinho, respondeu:
- Cala a boca, mulher!
Da barafunda, ele saiu meio envergonhado. O dono do comércio meteu ripa:
- Cada louco com sua mania.
Em casa, André emborcou um cesto sobre os frangos e apanhou uma faca afiada.
- Para que a faca?
- Você é curiosa, faz muita pergunta. Trinta anos de casados, só agora descubro sua língua e sua mente como péssimas aliadas para acompanhar-me no dia-a-dia.
- Oh, André, o que deu em você?
- Cuide da galinha e me deixe com os frangos!
André apanhou o primeiro e firmou sua cabeça no esfregador de roupas do tanque. Num golpe, decepou-a. Ainda se mexendo, André rasgou-o com precisão cirúrgica, sacando o papo e a moela. Tirou o alimento e colocou num prato: areia, milho, ração e por aí. Até uma miçanga azulada ele encontrou. Depois de vasculhar, jogou o conteúdo do prato na lixeira.
- Joana, depene este.
- Você faz a coisa errada. Primeiro, mergulha-se o frango na água fervente, retirando-se as penas. Depois é que se extrai o papo.
- Sei o que faço! Você já está enchendo o saco!
- Vai para o molho pardo?
- É muita coisa. Limpa e põe no freezer!
André partiu para o segundo frango. Matou-o, retirou a moela e o papo. O mesmo procedimento anterior. Depois de bem esmiuçado o alimento do miúdo sobre o prato, lançou-o à lixeira. Após, entregou-o à mulher para depená-lo, partindo para o terceiro frango.
- Vai matar outro?!
André já não falava. Apenas balançava a cabeça.
Joana estranhava seu comportamento. Desde que iniciara a perseguição aos frangos no matadouro, não mais sorriu. Ar circunspecto, falava de lado. De súbito, Joana assustou-se:
- Achei! - Gritou André, esfuziante, enquanto Joana corria ao seu encontro.
- Achou o quê, André?
- Vamos, Joana, passe-me o álcool e aquela cola rápida que está na porta da geladeira!
André trancou-se no banheiro, levando bons minutos para sair. Quando o fez, era outro homem. Até sua cor melhorou. Voltou a ser o homem que Joana conhecia: alegre, comunicativo, sorridente e amoroso. Pediu-lhe desculpas por algumas grosserias.
Resgatado o pivô e o respectivo dente que soltara da arcada dentária, no momento da escolha da galinha no matadouro, não havia mais motivo para tristeza e cara fechada. O frango engolira a peça e André tinha a exata noção de quanto pagara ao dentista pelo serviço.
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
A COBRA GUARDIÃ
Havia um trecho piscoso do Rio Paraíba do Sul, divisa de Minas com o Estado do Rio, onde não ousavam pescar. Os antigos alertavam sobre a existência de enorme cobra vigiando de margem a margem. Os pescadores nunca a viram, mas a respeitavam.
Era aviso de pai para filho. O local ficava abaixo da hidrelétrica da Ilha dos Pombos. Povo desconfiado, nem chegava perto da área esconjurada. Divertia-se noutras paragens. Havia rio demais para se preocuparem com trecho tão insignificante.
Caetano não era de crendices. Para ele, superstição significava carência de neurônios. Não se abalava com fantasmas, bruxas, cobras gigantes, vampiros e por aí afora. Nascera na cidade do Rio de Janeiro. Até ali, aprendera que o perigo morava dentro do homem. Assistira a coisas do arco da velha, inclusive já tropeçou em cabeças decapitadas por bandidos; conviveu com assaltos, estupros, sequestros, assassinatos brutais. Não tinha medo de balas perdidas. Assim, como ter receios de uma cobra, conhecida há anos como guardiã de um pedaço de rio? Pura gaiatice, pensou.
Aposentado, comprou um sítio defronte ao rio, próximo ao local perigoso. Ouvira a advertência, acreditando que o IBAMA fora quem plantara a idéia, visando a preservação de alguma espécie animal ou vegetal. Na região, margeia o Rio Paraíba respeitável mata.
Com o tempo, verificou tratar-se de assunto arraigado no espírito da comunidade. Sentiam arrepios só em falar no tamanho da cobra, seu furor e seus desígnios assassinos. Caetano ria-se por dentro. Educado, não contrariava os velhos moradores, que incutiam nos descendentes o estigma macabroso. Sua mulher se reservava. Não dizia que sim, nem que não. Os dois filhos não olhavam para as bandas enfeitiçadas do rio. Às vezes, preferiam não pescar. Liam, assistiam televisão, conversavam. Talvez a juventude mexesse com eles, pois leve temor balançava suas almas.
Certa feita, Caetano bandeou-se para os lados de Além Paraíba, acima da represa, onde, diziam, pescava-se muito piau. Retornou de fieira vazia.
De volta, uma luz! Havia peixe no tal lugar proibido. Ali não batiam tarrafa ou lançavam anzol, razão da piscosidade, em especial no poço entre as pedras tomadas de ingazeiros.
Esse negócio de superstição é coisa de trouxa! - Pensou, dirigindo-se para a margem direita, justo onde os mais crentes alardeavam encontrar-se o ninho da cobra, seu local de descanso após engolir intrusos. Entre os arvoredos, meio que sobre uma ilha de pedras de todos os tamanhos, sentou-se com seu equipamento de pesca. Vara para um lado, isca para outro, montou o instrumental. Não decorrera meia-hora, abarrotara o samburá. Nem lhe passavam pela cabeça as papagaiadas da vizinhança, sobre o perigo representado pela anaconda. Tanto que, sem pressa, tomou uma folha de bananeira, sobre a qual preparou um dourado para assá-lo sobre a laje de pedra. Nesse momento, soou uma sirene. Caetano não se tocou tratar-se de aviso da casa de máquinas das comportas. As aberturas G e H liberariam água em poucos instantes. Os variados avisos da hidrelétrica no correr do rio alertavam que, tocada a sirene, deveriam deixar o leito do rio e suas margens imediatamente, sob pena de ver periclitarem suas vidas, diante do roldão d'água descendo leito abaixo. Assim foi. Distraído, Caetano só despertou quando o barulho intenso explodiu perto de seus ouvidos, já não dando tempo para nada, senão subir num ingazeiro antigo, agarrar-se em seus galhos e ali ficar, até cessasse o turbilhão assolador. As águas levaram a eito todos os seus pertences. Ficou apenas com a roupa do corpo. "Ah, daqui a pouco a água baixa e saio daqui!" - Pensou.
O tempo escorreu, até que se passasse das dezoito horas. Entrava-se no crepúsculo. Passou-lhe a hipótese de escurecer e as águas não baixarem. Se lesse jornal, teria verificado que chovera muito em São Paulo, no Vale do Paraíba. Nesses casos, são frequentes as manobras na hidrelétrica, às vezes se demorando em reduzir o esgotamento do excesso d'água. Agarrara-se aos tenros galhos; estava nas grimpas àquela altura, totalmente indefeso em relação aos múltiplos perigos, dentre eles, as cobras venenosas que se envolviam na galhadura dos ingazeiros, arrastadas pelas águas das matas das margens. Foi então que sentiu sentiu uma picada na perna, picada ardida, penetrante, estranha. Pensou nas formigas. Qual nada! Fora picado por uma jararaca! Duas pequenas perfurações marcadas a sangue ficaram à vista de Caetano, ainda no lusco-fusco da passagem do dia para a noite. Mas essa agora! Preciso de socorro, senão morrerei envenenado! - Pensou. Gritava, ninguém ouvia. A corredeira ensurdecia.
A noite, agora, era pleno breu. A perna inchou. Brotaram-lhe ínguas. A água mantinha o nível alto. Os braços doíam, pouco se firmando nos galhos balouçantes. Os efeitos do veneno devastavam-no. Caetano perdia a noção das horas. Uma lanterna percorria a margem esquerda. Gritou a todo fôlego, mas foi inútil. As águas revoltas ensurdeciam. Em diante, longe dali, luzinhas do povoado rebrilhavam. Encontrava-se distante da casa de máquinas, numa das curvas do rio. A madrugada ia alta. Apavorado, ele amarrara as pontas da camisa e "se abotoara" num galho grosso, aliviando os braços. "Quando meus filhos amadurecerem, continuarão acreditando na existência da anaconda?" - Imaginava, num misto de cansaço e delírio. Lembrou-se do trato que fizera com o vizinho, para dividir as despesas da cerca. Construiriam, também, um açude para engorda de peixes. Não era coisa difícil.
Parecia que as águas batiam nas pedras e árvores com mais violência. A certa altura, Caetano levou a mão direita aos lábios; sentiu-os formigando. Tratava-se de entorpecimento fruto do veneno. A perna direita, era como se não a tivesse; a esquerda doía, dor aguda, como sendo arrancada do corpo. "O veneno da vadia provoca sensações surreais!" - Esbravejou.
A calça apertava a perna, estrangulando-a. Era o inchaço. O antídoto estava próximo, no posto de saúde. "Se saio daqui, as águas levarão meu corpo para Campos, em direção ao Oceano Atlântico, onde desemboca o Paraíba."- Lucubrou tenso.
De repente, um estrondo de águas rebuliçosas, árvores se partindo, barreiras se rompendo nas margens e pedras se batendo. O mundo vinha abaixo. Sequer deu tempo de gritar. Havia expectativa para tudo, menos para o ocorrido. Uma enorme pedra se desprendera e rolou em direção ao ingazeiro, projetando-se sobre o corpo de Caetano, juntando-o, como num sanduíche, ao tronco da árvore. Não sobrou osso inteiro, alguns espetando a própria árvore.
Ao amanhecer, ao acharem o corpo, depararam-se com os ossos moídos e a carne escurecida, efeito do veneno. A inchação deformara-o completamente.
Um antigo morador observou: " Eis o destino dos descrentes. A anaconda triturou-lhe os ossos, envenenou o corpo. Chegará o dia em que todos obedecerão à serpente guardiã."
Era aviso de pai para filho. O local ficava abaixo da hidrelétrica da Ilha dos Pombos. Povo desconfiado, nem chegava perto da área esconjurada. Divertia-se noutras paragens. Havia rio demais para se preocuparem com trecho tão insignificante.
Caetano não era de crendices. Para ele, superstição significava carência de neurônios. Não se abalava com fantasmas, bruxas, cobras gigantes, vampiros e por aí afora. Nascera na cidade do Rio de Janeiro. Até ali, aprendera que o perigo morava dentro do homem. Assistira a coisas do arco da velha, inclusive já tropeçou em cabeças decapitadas por bandidos; conviveu com assaltos, estupros, sequestros, assassinatos brutais. Não tinha medo de balas perdidas. Assim, como ter receios de uma cobra, conhecida há anos como guardiã de um pedaço de rio? Pura gaiatice, pensou.
Aposentado, comprou um sítio defronte ao rio, próximo ao local perigoso. Ouvira a advertência, acreditando que o IBAMA fora quem plantara a idéia, visando a preservação de alguma espécie animal ou vegetal. Na região, margeia o Rio Paraíba respeitável mata.
Com o tempo, verificou tratar-se de assunto arraigado no espírito da comunidade. Sentiam arrepios só em falar no tamanho da cobra, seu furor e seus desígnios assassinos. Caetano ria-se por dentro. Educado, não contrariava os velhos moradores, que incutiam nos descendentes o estigma macabroso. Sua mulher se reservava. Não dizia que sim, nem que não. Os dois filhos não olhavam para as bandas enfeitiçadas do rio. Às vezes, preferiam não pescar. Liam, assistiam televisão, conversavam. Talvez a juventude mexesse com eles, pois leve temor balançava suas almas.
Certa feita, Caetano bandeou-se para os lados de Além Paraíba, acima da represa, onde, diziam, pescava-se muito piau. Retornou de fieira vazia.
De volta, uma luz! Havia peixe no tal lugar proibido. Ali não batiam tarrafa ou lançavam anzol, razão da piscosidade, em especial no poço entre as pedras tomadas de ingazeiros.
Esse negócio de superstição é coisa de trouxa! - Pensou, dirigindo-se para a margem direita, justo onde os mais crentes alardeavam encontrar-se o ninho da cobra, seu local de descanso após engolir intrusos. Entre os arvoredos, meio que sobre uma ilha de pedras de todos os tamanhos, sentou-se com seu equipamento de pesca. Vara para um lado, isca para outro, montou o instrumental. Não decorrera meia-hora, abarrotara o samburá. Nem lhe passavam pela cabeça as papagaiadas da vizinhança, sobre o perigo representado pela anaconda. Tanto que, sem pressa, tomou uma folha de bananeira, sobre a qual preparou um dourado para assá-lo sobre a laje de pedra. Nesse momento, soou uma sirene. Caetano não se tocou tratar-se de aviso da casa de máquinas das comportas. As aberturas G e H liberariam água em poucos instantes. Os variados avisos da hidrelétrica no correr do rio alertavam que, tocada a sirene, deveriam deixar o leito do rio e suas margens imediatamente, sob pena de ver periclitarem suas vidas, diante do roldão d'água descendo leito abaixo. Assim foi. Distraído, Caetano só despertou quando o barulho intenso explodiu perto de seus ouvidos, já não dando tempo para nada, senão subir num ingazeiro antigo, agarrar-se em seus galhos e ali ficar, até cessasse o turbilhão assolador. As águas levaram a eito todos os seus pertences. Ficou apenas com a roupa do corpo. "Ah, daqui a pouco a água baixa e saio daqui!" - Pensou.
O tempo escorreu, até que se passasse das dezoito horas. Entrava-se no crepúsculo. Passou-lhe a hipótese de escurecer e as águas não baixarem. Se lesse jornal, teria verificado que chovera muito em São Paulo, no Vale do Paraíba. Nesses casos, são frequentes as manobras na hidrelétrica, às vezes se demorando em reduzir o esgotamento do excesso d'água. Agarrara-se aos tenros galhos; estava nas grimpas àquela altura, totalmente indefeso em relação aos múltiplos perigos, dentre eles, as cobras venenosas que se envolviam na galhadura dos ingazeiros, arrastadas pelas águas das matas das margens. Foi então que sentiu sentiu uma picada na perna, picada ardida, penetrante, estranha. Pensou nas formigas. Qual nada! Fora picado por uma jararaca! Duas pequenas perfurações marcadas a sangue ficaram à vista de Caetano, ainda no lusco-fusco da passagem do dia para a noite. Mas essa agora! Preciso de socorro, senão morrerei envenenado! - Pensou. Gritava, ninguém ouvia. A corredeira ensurdecia.
A noite, agora, era pleno breu. A perna inchou. Brotaram-lhe ínguas. A água mantinha o nível alto. Os braços doíam, pouco se firmando nos galhos balouçantes. Os efeitos do veneno devastavam-no. Caetano perdia a noção das horas. Uma lanterna percorria a margem esquerda. Gritou a todo fôlego, mas foi inútil. As águas revoltas ensurdeciam. Em diante, longe dali, luzinhas do povoado rebrilhavam. Encontrava-se distante da casa de máquinas, numa das curvas do rio. A madrugada ia alta. Apavorado, ele amarrara as pontas da camisa e "se abotoara" num galho grosso, aliviando os braços. "Quando meus filhos amadurecerem, continuarão acreditando na existência da anaconda?" - Imaginava, num misto de cansaço e delírio. Lembrou-se do trato que fizera com o vizinho, para dividir as despesas da cerca. Construiriam, também, um açude para engorda de peixes. Não era coisa difícil.
Parecia que as águas batiam nas pedras e árvores com mais violência. A certa altura, Caetano levou a mão direita aos lábios; sentiu-os formigando. Tratava-se de entorpecimento fruto do veneno. A perna direita, era como se não a tivesse; a esquerda doía, dor aguda, como sendo arrancada do corpo. "O veneno da vadia provoca sensações surreais!" - Esbravejou.
A calça apertava a perna, estrangulando-a. Era o inchaço. O antídoto estava próximo, no posto de saúde. "Se saio daqui, as águas levarão meu corpo para Campos, em direção ao Oceano Atlântico, onde desemboca o Paraíba."- Lucubrou tenso.
De repente, um estrondo de águas rebuliçosas, árvores se partindo, barreiras se rompendo nas margens e pedras se batendo. O mundo vinha abaixo. Sequer deu tempo de gritar. Havia expectativa para tudo, menos para o ocorrido. Uma enorme pedra se desprendera e rolou em direção ao ingazeiro, projetando-se sobre o corpo de Caetano, juntando-o, como num sanduíche, ao tronco da árvore. Não sobrou osso inteiro, alguns espetando a própria árvore.
Ao amanhecer, ao acharem o corpo, depararam-se com os ossos moídos e a carne escurecida, efeito do veneno. A inchação deformara-o completamente.
Um antigo morador observou: " Eis o destino dos descrentes. A anaconda triturou-lhe os ossos, envenenou o corpo. Chegará o dia em que todos obedecerão à serpente guardiã."
terça-feira, 8 de setembro de 2009
EQUÍVOCO
Danilo era comedido na prosa. Confortava-se com o pouco e verdadeiro. Mentira não era com ele; não sabia mentir. Não se sentia bem com balaqueação. Conhecido pelos dotes morais, recebiam-no nas rodas de conversa sem reservas.
Rompido o noivado, Danilo entregou-se ao amargo da melancolia. Falava pouco, restringindo-se a respostas curtas às eventuais indagações. O motivo da tristeza era conhecido.
Numa das poucas saídas noturnas, decidiu tomar uns tragos num bar com música ao vivo, onde encontraria amigos e belas garotas. Sentou-se a um canto e logo se viu numa troca de olhares com bela moça, sentada ao lado de sua mesa. Há muito não sentia tal emoção.
Danilo renovava-se a cada instante, desde logo se imaginando ao lado da novel conquista. Ela, acompanhada de duas outras amigas, resplandecia. Não é difícil saber-se quando uma mulher se disponibiliza a um desconhecido, de pronto, ao tipo do amor à primeira vista.
Mulher bonita, rosto iluminado, seu sorriso mostrava um cordão de pérolas, dentes saudáveis e belos. A cor indefinida dos olhos, entre o verde musgo e o mar proceloso, encantavam-no.
Danilo convidou-a para dançar. Ela aceitou. Após as apresentações de estilo, puseram-se a divagações em torno da noite e do encontro, bem como casualidades comuns naquele tipo de lugar. Algumas esperanças movimentaram-se na alma de Danilo. A bem dizer, havia dois universos de emoções maduras, almas entrelaçadas de mistérios.
Naquela madrugada fugaz, a conversa protraiu-se ao rigor da satisfação recíproca. O encanto cresceu, ao brotarem lembranças de uma terra que lhes era comum, no Alto Uruguai. Agora, olhos nos olhos, assumiam retratos convergentes, sentenciavam princípios e acordavam sobre homens comuns e suas obras.
De forma direta, Danilo mostrava seus sonhos e anseios, traçando as frustrações que o angustiavam, perguntando sobre os rumos do amanhã.
Eram dois mundos inteirados da realidade nua dos sentidos, enquanto a madrugada efêmera corria pelos caminhos dos milênios eternais: inexoravelmente, sem dar chances ao colóquio desejado para a resolução das aflições; a amplidão temporal era só aparência. Se o tempo fosse o pai das soluções, muito se teria resolvido no seio da humanidade, indagava-se Danilo, enquanto os segundos atropelavam os ponteiros do relógio.
Houve, é claro, o tremor da sensação sob a imaginação dos corpos nus, submetidos ao êxtase.
A ambos era comum o sonho de retornar aos trigais, paragens resolutas dos campônios sensíveis. Danilo imaginava-se entregue aos ventos, vivendo as ondas largas dos verdores sob a natureza bonançosa de Campo Novo, Braga, Redentora, Tenente Portela, Humaitá, Coronel Bicaco, São Martinho, Chiapeta, Santo Augusto, Três Passos. Nesse trajetar cheio de esperanças, as mãos nas mãos projetavam desejos incontidos. O coração de Danilo fizera-se salão de festa, indiferente às dores, amarguras e angústias.
Ah, imaginava ele, nada melhor do que a transparência da palavra e da alma! Ia assim nesse enlevo, enquanto os raios da manhã despontavam nas imensidões dos pampas.
No jogo de palavras inteiriças, Danilo tomava-se de enleio sem limites. Tratava-se de bela mulher, egressa de sua cidade natal para ganhar a vida em trabalho honesto na capital. Encontrava-se na cidade de Bagé, chefiando equipe de empresa telefônica, em serviço de captação de usuários e outras atividades.
A claridade do dia encontrou-os no automóvel de Danilo. Já distinguiam a naturalidade que se fazia comum no processo de conquista e encantamento.
Hora de despedida. Construíra-se intimismo irresistível, amor mesclado a sentido de partida, pois a mulher viajaria para Porto Alegre naquele dia. Mas, justo na hora do adeus, Danilo sucumbiu, ao despojar sua alma preocupada diante das incertezas sopesadas pela jovem. Ofereceu-lhe dinheiro! Colocou-se ao dispor do amor nascente, caso dificuldades a afligissem! Foi aí que, resoluta, a jovem se sentiu em posição equivocada, confundida com as mulheres fáceis das noites da Capital. Fora como se Danilo jogasse um balde de água fria sobre os sentimentos nascidos daquele encontro. Um rompimento abateu-se sobre ambos, após explosão irresignada da mulher, que não aceitou as justificativas de Danilo.
Ela se foi. Ele ficou durante bom tempo dentro do carro, em lamentações. Pagava sobre o que jamais pensara; mas sofria pelo que dissera, no mais profundo engano das horas.
Sobre o que ele queria, ah, guardou para sempre em seu coração!
Danilo nunca mais se enamorou de outra mulher.
Rompido o noivado, Danilo entregou-se ao amargo da melancolia. Falava pouco, restringindo-se a respostas curtas às eventuais indagações. O motivo da tristeza era conhecido.
Numa das poucas saídas noturnas, decidiu tomar uns tragos num bar com música ao vivo, onde encontraria amigos e belas garotas. Sentou-se a um canto e logo se viu numa troca de olhares com bela moça, sentada ao lado de sua mesa. Há muito não sentia tal emoção.
Danilo renovava-se a cada instante, desde logo se imaginando ao lado da novel conquista. Ela, acompanhada de duas outras amigas, resplandecia. Não é difícil saber-se quando uma mulher se disponibiliza a um desconhecido, de pronto, ao tipo do amor à primeira vista.
Mulher bonita, rosto iluminado, seu sorriso mostrava um cordão de pérolas, dentes saudáveis e belos. A cor indefinida dos olhos, entre o verde musgo e o mar proceloso, encantavam-no.
Danilo convidou-a para dançar. Ela aceitou. Após as apresentações de estilo, puseram-se a divagações em torno da noite e do encontro, bem como casualidades comuns naquele tipo de lugar. Algumas esperanças movimentaram-se na alma de Danilo. A bem dizer, havia dois universos de emoções maduras, almas entrelaçadas de mistérios.
Naquela madrugada fugaz, a conversa protraiu-se ao rigor da satisfação recíproca. O encanto cresceu, ao brotarem lembranças de uma terra que lhes era comum, no Alto Uruguai. Agora, olhos nos olhos, assumiam retratos convergentes, sentenciavam princípios e acordavam sobre homens comuns e suas obras.
De forma direta, Danilo mostrava seus sonhos e anseios, traçando as frustrações que o angustiavam, perguntando sobre os rumos do amanhã.
Eram dois mundos inteirados da realidade nua dos sentidos, enquanto a madrugada efêmera corria pelos caminhos dos milênios eternais: inexoravelmente, sem dar chances ao colóquio desejado para a resolução das aflições; a amplidão temporal era só aparência. Se o tempo fosse o pai das soluções, muito se teria resolvido no seio da humanidade, indagava-se Danilo, enquanto os segundos atropelavam os ponteiros do relógio.
Houve, é claro, o tremor da sensação sob a imaginação dos corpos nus, submetidos ao êxtase.
A ambos era comum o sonho de retornar aos trigais, paragens resolutas dos campônios sensíveis. Danilo imaginava-se entregue aos ventos, vivendo as ondas largas dos verdores sob a natureza bonançosa de Campo Novo, Braga, Redentora, Tenente Portela, Humaitá, Coronel Bicaco, São Martinho, Chiapeta, Santo Augusto, Três Passos. Nesse trajetar cheio de esperanças, as mãos nas mãos projetavam desejos incontidos. O coração de Danilo fizera-se salão de festa, indiferente às dores, amarguras e angústias.
Ah, imaginava ele, nada melhor do que a transparência da palavra e da alma! Ia assim nesse enlevo, enquanto os raios da manhã despontavam nas imensidões dos pampas.
No jogo de palavras inteiriças, Danilo tomava-se de enleio sem limites. Tratava-se de bela mulher, egressa de sua cidade natal para ganhar a vida em trabalho honesto na capital. Encontrava-se na cidade de Bagé, chefiando equipe de empresa telefônica, em serviço de captação de usuários e outras atividades.
A claridade do dia encontrou-os no automóvel de Danilo. Já distinguiam a naturalidade que se fazia comum no processo de conquista e encantamento.
Hora de despedida. Construíra-se intimismo irresistível, amor mesclado a sentido de partida, pois a mulher viajaria para Porto Alegre naquele dia. Mas, justo na hora do adeus, Danilo sucumbiu, ao despojar sua alma preocupada diante das incertezas sopesadas pela jovem. Ofereceu-lhe dinheiro! Colocou-se ao dispor do amor nascente, caso dificuldades a afligissem! Foi aí que, resoluta, a jovem se sentiu em posição equivocada, confundida com as mulheres fáceis das noites da Capital. Fora como se Danilo jogasse um balde de água fria sobre os sentimentos nascidos daquele encontro. Um rompimento abateu-se sobre ambos, após explosão irresignada da mulher, que não aceitou as justificativas de Danilo.
Ela se foi. Ele ficou durante bom tempo dentro do carro, em lamentações. Pagava sobre o que jamais pensara; mas sofria pelo que dissera, no mais profundo engano das horas.
Sobre o que ele queria, ah, guardou para sempre em seu coração!
Danilo nunca mais se enamorou de outra mulher.
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