sábado, 5 de setembro de 2009

ASAS DA ILUSÃO

Havia muito de alucinação no que Altino falava sobre Maria da Penha, a mulher de seus sonhos. Seu corpo fora moldado com extrema perfeição; isso o afligia dia e noite. Corpo de carne e osso que nada devia às musas dos poetas consagrados, às artistas em geral e às lindas sirigaitas das capas das revistas masculinas. Era sangue verdadeiro nas veias da mulher-encanto.
Porém Maria da Penha transformara-se num espectro na vida de Altino. Depois de vários anos, ei-la emergindo dos fundões de sua memória, revigorando o sentido da paixão, como se nunca tivesse desaparecido de seus sentidos, mas apenas dado um descanso à alma.
Maria da Penha, Penha, Peninha, Meu Anjo, Pepê, Pê, sei lá quantos nomes mais enumeraria, tanto o amor e o poder criativo de Altino no tratamento carinhoso à bela mulher.
Durante meses, Maria morou em sua companhia numa casa à beira-mar. Amor mágico, regado a vinho e passeios. Digam o sol e a lua sobre os dois nas areias beges da extensa praia. De súbito, foi-se e não mais voltou. É verdade, nunca mais!
Altino escrevia em prosa e verso sobre a beleza da amante. Suplicava seu retorno.
Seu corpo era mistério escondido num tempo, que ao tempo se lançava entre ânsias de amor. Era a emoção atirada na areia, sereia de encantos morando no mar!
Altino anunciava que o corpo de Maria da Penha era um brinquedo aos seus olhos de sonhos, sonhos paridos da fonte dos êxtases puros. Ele a sentia em desejos ardentes, com os dentes trincados no instante da espera, porque o corpo de Maria da Penha era a floresta, o deserto, o oceano, a festa de luzes ofuscando sua alma.
- Vem, Maria da Penha, junta teu corpo ao meu. Dá vazão à minha libido. Desarrumemos o lençol de areia, enquanto a noite prateada e mágica se faça residência à nossa luxúria!
A trama envolve Altino, leva-o ao fundo do poço, morada dos desencantos. Vivia ao lado de Maria da Penha momentos de engano, olhos cerrados aos duros instantes de ausência.
Altino, por que se submeter a tanto sofrimento?
Era um poeta. Conhecia a composição dos sonhos, sua textura de algodão. Ao baixar a cerração, a realidade desnudava-se inflexível. Era quando Altino indagava sobre onde andaria Maria da Penha, instantes de emoção singela, poemas aos borbotões, razão de viver aflorada, libido em alerta, enquanto jurava ânsias ciganas de ter os caminhos aos pés de seus passos, para procurá-la em todos os lugares do mundo!
Ah, isso faz anos! Ela se foi para sempre, de repente. Aquelas coisas acontecendo no coração da mulher, sem que se explique como ou por quê. Outro amor? Cansaço? Rotina? Desejo de aventura? Sua partida resultou em perplexidade. Havia casos complexos, mas fáceis de esclarecer. Mas para o caso de Altino não havia justificativa. Ela se foi, simplesmente se foi, deixando-o aturdido. Não se curou, porque o vírus manteve-se hibernado durante vários anos. Agora, lamenta todas as ausências, em versos de todos os sentidos. Que coisa sem jeito!
Maria da Penha, esse império de cultura e de beleza, corpo misterioso, construía os poemas sofridos do poeta.
As ondas milenares repetiam seu canto. Altino misturava poções, fazia preces e esperava atendimento às súplicas. Mas, oh!, iludido Altino, há quanto tempo Maria da Penha se foi!
Ao homem não importava a recomendação banal. Sua alma queimava sobre chamas teimosas de amor. Viveria feliz longe das asas da ilusão. A realidade sempre foi muito má para os poetas. Seu universo interior, a imaginação sem limites, oh, ele termina afundando nas trilhas de fuga!
Vamos em frente, Altino! A ti interessa que Maria da Penha ainda exista? Duvido. Fala a verdade!
Ah, esses poemas que se multiplicam na alma dos sonhadores! Como são dolorosos!

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

DECISÃO

Estava difícil. O Homem bebia todas as noites e gritava com a mulher e os filhos. Enquanto o vômito voava dentro do banheiro, excomungavam-no. Era fedentina dos diabos, mistura de torresmo com amendoim, salsichão com salada russa, tudo regado a vinho batizado pelo dono do bar, falsificação sem freios e arreios que, por tostões, viabilizava, além de um baita porre, muitas outras desgraças.
Rosa, filha mais velha, era linda e cobiçada. Os irmãos sofriam com o bate-boca do casal, até que a manhã despontasse. O pai tomava café e rumava para o porto. As crianças, para o colégio. Rosa frequentou escola até os doze anos; para além, faltou-lhe uniforme e material escolar. À decisão de abandonar a escola, não houve resistência, pois ajudava a mãe em casa, que gostava da companhia da filha. Ao seu lado, esquecia os problemas criados pelo marido.
Um dia, o velho sentiu dores no fígado. O médico diagnosticou cirrose hepática! Seu estado levou-o à aposentadoria. Recebia proventos miseráveis; pouco atendiam à subsistência das sete bocas. De tudo por tudo, dependiam daqueles parcos recursos. Rosa resolveu trabalhar. Empregou-se no bazar de um árabe viúvo, residente nos fundos do comércio.
O tempo levou Rosa a se inteirar das condições de vida do patrão. Sozinho, ele preparava suas refeições. Penalizada, Rosa colocou-se ao seu dispor para fazer o almoço. Ele exultou. Não cansava de elogiar a comida. Até engordou! Um dia, sem arreganhos, perguntou a Rosa se queria viver com ele. Ela se espantou. Virou a costa e foi para o balcão. À noite, ao deitar-se, pensou na proposta do homem solito e de razoável condição econômica. Dia seguinte, ele pediu desculpas a Rosa. Reconheceu a ousadia junto a quem tanto o ajudava.
As coisas pioravam na casa de Rosa. A irmã mais nova menstruara. Sequer havia papel higiênico. Usavam lencinhos de roupas velhas. Três moças, eram varais e varais secando dezenas de pecinhas íntimas. A vizinhança olhava com pena. O pai, na bebida, apressava a morte.
Numa segunda-feira, Rosa foi trabalhar com um vestido sensual. Fingindo não ver o árabe, acertava o sutiã com um dos seios à mostra. De repente, sentiu-o às costas, ofegante.
- Perdoa-me, Rosa, mas não resisti! É lindo!
- Oh, que imprudência! Por que não fui ao banheiro? – Disse a jovem comerciária.
- Desculpa! Eu é que não podia estar aqui! Mas gosto muito de você!
Lágrimas nos olhos, manifestando pundonor evidentemente dissimulado para aquele momento, levantou a cabeça devagar e perguntou ao constrangido patrão:
- Verdade?
- Sim. Você tem algum compromisso amoroso?
- Não tenho. Compromisso de pobre é lutar pela sobrevivência.
- Posso lhe dar o que quiser, sabe disso.
- Minha idade... Tenho dezessete anos. Sou menor e virgem.
- O que tem isso? O amor não escolhe idade.
Ele precisava de alguém. Rosa sabia disso. Em diante, muita coisa mudou na vida do solitário comerciante. Passou a andar bem vestido, cabelo aprumado, barba feita. Acontece que a diferença de idade era de quarenta anos!
Havia choro. Rosa ansiava melhor destino para seu corpo, um jovem esposo. Mas esperar essa realidade seria jogo arriscado. As emoções transluziam tristezas e mágoas. Sob sua ótica, homens e mulheres eram sombras e sonhos perdidos; transes, revoltas e vazios.
Pelas ruas, sentia o triste silêncio dos seres e das coisas; porém, não receava diante dos escuros. Leve sensação tomava-a de vez em quando, diante dos gritos interiores, indicando presságios. Rosa conhecia a gente sofrida, não curada; no entanto, não se entregava. Eram pessoas peregrinando ao longo das estradas, rumo às emboscadas da vida. Nas calçadas, sobravam lamúrias, notícias de agruras, amarguras inominadas, vontades sobre mortalhas, caminhos sem volta, gargantas sem voz. Mãos estendidas traziam
remédios tardios; a reza já não curava pecados; a voz da promessa era cantiga nojenta; o gosto de sangue explodia nas bocas: era a dura sentença dos corpos marcados. Navalhas afundavam na carne trêmula, decreto fatal carcomendo esperanças, fabricando manchetes para o dia seguinte, constituindo-se no rubro limite entre a dor e a tragédia. Os golpes desferidos pelo tempo curvavam idades sem volta, forjando disfarces no espírito-pranto, à luz dos sorrisos e gestos engodatórios.
Rosa se envolvera em brumas. Fazia-se necessária uma decisão. Não ficaria inerme. Tomaria um norte, fatal ou aberto ao amor e à vida. Qual fosse o caminho, porém, todos a levariam a algum tipo de morte. Mas não importava, diante do que via ao chegar em casa. A mãe em desespero; o pai agarrado à aguardente; os irmãos ao deus-dará.
Não demorou, Rosa tomou a frente das decisões:
- Creusa e Cremilda estão empregadas. Mamãe, em uma semana mudaremos desta casa. Pedro e Nataliel estudarão e trabalharão. Zezinho ajudará na casa, até se ajeitar. Eu e o patrão casaremos.
O pai, ouvidas as ordens da filha, gritou do corredor:
- Quem manda aqui sou eu! Ninguém vai a lugar nenhum! Você não casará com aquele turco de merda, velho nojento! Quero mais para minha filha!
Rosa virou-se para o pai e disse:
- Esquecia, papai. O senhor será internado no Hospital de Caridade. Curaremos a bebedeira e a cirrose hepática. O resto que se falar dentro desta casa é baboseira! Já sofri as mazelas possíveis! Agora é viver! Preparar o futuro, o meu e o de vocês. Tenho dito!
Dali, foi para o quarto chorar.

SEM PEIAS

Zé Antônio biritava a noite inteira. Não resistia a uma porta de bar. Ao depois, perambulava madrugada a dentro, cantando velhas meretrizes e fantasmas. A barba por fazer dava-lhe ar misterioso, mas de gente relaxada, sem destino, sem família, ao modelo dos que andavam por andar, andarilhando sempre, mas sem tempo de chegar. Mantinha-se com amiudados recursos provindos da previdência estatal, que mal se arrastavam até o quinto dia do mês.
Desprezava a idéia de aniquilar-se sob as regras que atavam os pés das pessoas às camas, para ensinar modos convenientes da civilização envernizada. Queria-se assim: birita, mulheres e noite, sem companheiro chato aporrinhando com histórias sem graça de culpas e pecados. Para esses, dava-se como tímido e saía fora.
No fundo, matava-se de risos ao seu jeito particular de observar as pessoas. Eram os rios caudalosos e subterrâneos dando forças à sua existência. A vida e seus penduricalhos representavam fonte inexaurível de humor e ironia. Doutra banda, o presente era seu porto real. O futuro não mexia com seus sentimentos.
Quanto ao passado, dizia que as lembranças estabeleciam tentativas dolorosas de saudades. Zé Antônio ria dessas tramas enlaçadoras de gente como ele, geradoras de tristeza nas esquinas de cães, vagabundos e sonhos.
Ele não ligava para o fato de ter-se acostumado à lida dos fracassos, às vitórias efêmeras, aos tombos. Sabia que o homem nascera para esse circo, onde viveria junto às feras e na corda bamba. Entre ser canalha ou bom moço, preferia o colarinho largo dos picadeiros.
Camisas e calças de brim; olhos de ferro; o coração, uma coisa qualquer que não se abatia nunca. Ao enfrentar as sucessivas fronteiras de barro cru, pressentia o esvaecimento das conquistas. Assim, tocar para a frente os passos, sem esperar algo especial, tampouco o abismo. Era sua sina ser assim.
Não frutificavam desejos impossíveis; exilara as utopias. Destas, ele conhecia as manhas. Despistava a memória, para não recordar prazeres realizados. Detestava sustos de reencontros. Cabelos brancos e rugas faziam parte do processo. E pronto!
O que valia para Zé Antônio era o agora sem peias ou mistérios, fosse no bar dos flagelos, ou no das imaginações, ou sobre a meretriz sem identidade garantindo-lhe êxtase e esquecimento para instante seguinte.
Pensar no amanhã ou no ontem era-lhe avesso, como o era registrar o apito do guarda, o latidos da cadela no cio, o choro da mulher estranha que lhe relaxara as tensões.
Indiferente aos martírios, imaginava a vida uma longa estrada - que por alguma circunstância poderia ser encurtada -, onde fatos e acontecimentos brotavam inexoravelmente às margens, materializando-se à passagem do indivíduo. Situações boas ou ruins, elas aconteciam durante a jornada, independentemente de qualquer protesto ou desejo. Nesse trânsito estranho, o engarrafamento era fato comum, endoidecendo os açodados.
Não era um trouxa. Sabia despistar sofrimentos. Pouco se enrodilhava nas rmadilhas. O amor, por exemplo, jamais fora proposta de vida ou morte.
Zé Antonio despediu-se da existência, quando sua própria natureza decretou-lhe inteira consciência das coisas.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

O DESEMPREGADO

Não trabalhava fazia dois meses. Recessão pesada, havia poucos empregos no mercado. Corria os classificados do jornal todos os dias. Tânia, equivocada, taxara-me de pós-graduado em ociosidade. Era certa uma coisa: eu não me cagaria de graxa por nada nesse mundo! Merecia coisa melhor, como um escritório. Pensei em montar negócio próprio, mas não tinha dinheiro nem pro cigarro.
Atendendo a anúncio, compareci ao departamento de pessoal de um indústria moveleira. Exigiam do interessado letra boa, segundo grau e boa aparência. Trabalharia no setor de expedição. Quando criança, vovó me castigava sobre cadernos de caligrafia. Um passo à frente, imaginei. Na verdade, minha letra era invejável, tipo letra de professora primária!
Atendeu-me uma senhora muito séria, de óculos. Mandou-me aguardar na saleta ao lado, onde já havia cerca de dez pessoas. Perguntei a um rapaz se atendera ao mesmo anúncio. Confirmou. Entre os candidatos, havia três mulheres. Pretenderiam a mesma vaga? O anúncio falava em “chefe de expedição”. Indaguei-me sobre a expressão. Tinha um sentido forte, parecia cargo destinado a macho. Sim, “chefe de expedição” era coisa para homem! Curioso, perguntei às moças se buscavam a vaga, porque, após a minha chegada, duas outras entraram na saleta, àquela altura entupida. A resposta foi positiva: disputavam a vaga de “chefe de expedição”. Então, me toquei. Nunca ouvira mulher sendo chamada de chefa, o que, com licença do vernáculo, seria um termo para lá de sacal. Lembrei-me do substantivo comum de dois gêneros: o chefe, a chefe. Pensei: trumbique-se o pavio, a bomba explodirá mesmo! E esperei o chamado.
Olhava para a cara das pessoas; todas precisavam do emprego. Um esfregava as mãos sem parar. Vez que outra, passava o lenço no pescoço. Tirou o maço de cigarros do bolso várias vezes. Se fumasse ali, apanharia. A saleta estava abafadíssima. Uma loira gostosona lia sem parar um livro de bolso, dobrando as páginas como se lesse uma revista. Era desses livrinhos populares, descartáveis, onde os amantes brigam durante cento e noventa e nove páginas, dão tiros um no outro, corneiam-se a valer, para, depois de tudo, reconciliarem-se na penúltima página, testando a capacidade de condescender do leitor. Ao chegar à metade, o tal livreco se quebra; lido, vai ao lixo.
Um cara sentado na cadeira do canto não desviava o olhar da parede. Parecia hipnotizado. Usava aliança de noivo. Parecia decorar um texto. Coisa de louco. Ali, cada qual merecia um manicômio diferente. Somando todos aqueles desejos, levantaríamos edifícios de fumaça. Ou explodiríamos sob miríades de esperaças.
Uma vaga e um exército rezando. Nessa hora, a oração é geral. Deus pra lá, Deus pra cá, com quem ele está? Um rápido bate-boca entre dois mijões deixou-me pateta: um sustentava que era rezar; o outro, orar. Reza-se o que já está escrito, sacramentado; orar é improvisar o conteúdo da súplica ou algo parecido. Liguei-me por alto na filosofia do embate. Estava atento à tensão formada por causa da discussão. O cacete não comeu, porque um sujeito nervosão pediu um ponto final na encrenca, senão ele ia se meter a jeito! Rezando ou orando, ao chegar a frustração manda-se tudo às favas. O homem é assim. Medroso, perde a vergonha vez que outra. Eu não rezei. Deus não escolheria todos, embora todos rezassem. Isso passava na minha cabeça, no momento em que apareceu um rapaz na porta, calça azul marinho, camisa branca de mangas compridas, gravata preta, sapatos engraxados.
- O primeiro.
Entreolhamo-nos. Quem era o primeiro?
- Eu... Fui a primeira a chegar. - Disse uma senhora, uns quarenta e cinco anos.
- Sim. O primeiro é... tá aqui, dona Edeltrudes Ananias Rizoletta Oliveira Alves e Silva.
Pô, pensei, nome de aristocrata, sobrenome de presidente da república, atrás de um empreguinho mixuruca daqueles!
- Sou eu mesma. Cheguei primeiro e não abro mão.
- Então, entre.
Ao se apresentar, o candidato deixava o nome com a tal dona de óculos. Bastava o rapazinho chamar pelo nome, na ordem de chegada. Mas... começa aí a minha aporrinhação. Quando ironizo certas coisas, ou banco o cínico, não me entendem. Estão vendo o exemplo? Aliás, com aquele nome compridão, por que acrescentar "...e não abro mão?" Coisa de gentinha.
Dona Edeltrudes não demorou três minutos. Chorava como carpideira bem recompensada. Nessas horas, pensamos bobagens. Pior se saísse peidando ou reclamando de cantada mal dada. Quanta besteira! Mas era sinal da minha tranquilidade, naquele brete de gente nervosa.
- Isso é discriminação. Registrarei queixa no Escritório de Defesa dos Direitos Humanos, em Brasília e na ONU! - Vociferava a candidata recém entrevistada.
A idéia de todos era de que passaram a mão em suas coxas. Mas olhei a figura e descartei a hipótese. Ela cruzava, quando um candidato perguntou o ocorrido. Respondeu:
- A idade! Essa maldita idade! O vagabundo quer guriazinha nova! Perdi a manhã inteira, para ouvir que minha idade poderia atrapalhar. Se eu fosse um mulherão, peitinho duro e cintura fina, esqueceria da idade! Mas, depois de cinco filhos, tudo cai! Esse babaca é um pedófilo graduado!
- Emílio... Emílio Santelmo.
- Eu!
- Entra.
E o Emílio? O que seria dele? O entrevistador perguntaria: Nome completo. Lugar e data de nascimento. Ele responderia: Pindamonhangaba, São Paulo. Não sei por que pensei nisso. Num buraco daqueles, mil bobagens afloram. Ainda bem que fica tudo guardado com a gente, exceto quando a curiosidade cutuca forte. Emílio saiu. Como chamavam pela ordem de chegada, eu não seria o próximo. Segui Emílio.
- Emílio!
- Oi! Você me conhece?
- Não. Também sou candidato. Ouvi seu nome. Só por curiosidade: Você nasceu onde?
- Por que quer saber?
- Curiosidade, só.
- Nasci em Formiga, Minas Gerais.
- Pô, cara, legal! Me desculpe. Tinha quase certeza de que você nascera em Pindamonhangaba. Me desculpe. Gostou da entrevista?
- Acho que me dei mal. O entrevistador é um babaca engravatado, assessorado por uma morena gostosa. Quer saber o calibre das perguntas?
- Sim.
- Se eu já tive gonorréia! Pô, cara, isso é pergunta que se faça?
- O que tem a ver chefe de expedição com gonorréia?
- É o que quero saber. Acho que na cabeça daquele medíocre haja alguma relação de causa e efeito, entre o cargo e a gonorréia. Talvez trauma de infância, coisa de mãe tomada de males, zona do meretrício, sei lá!
- Me desculpe ter parado você. Eu vou pra lá, senão me chamam e..
- Passe bem. Boa sorte!
Voltei para meu lugar. Parecia um hospício. Eu já não queria nem boa nem má sorte. Desejava ir para casa.
- Jerônimo.
Lembrei de Jerônimo, o herói do sertão. Minha mãe passava roupa, eu me apoltronava para ouvir as aventuras da radionovela. Era empolgante. Criança se emociona à-toa. Adulto, só quando o emprego tá ameaçado. Mas eu tava cagando e andando. Até me divertia! Corria-me a sensação de que perdia tempo. Era a única coisa terrível que sentia. Perder tempo!
Jerônimo saiu com cara de esperançado. Chegou na saleta de volta, parou, suspendeu a calça, acertou a camisa, balançou o corpo e seguiu. Tinha cara de burocrata. Acho que gostaram dele, da sua elegância. Todos da empresa usavam uniforme. Na vida comum também deveria ser assim. Acabaria com a babaquice da discriminação por causa de roupa.
- Marlene!
Marlene lembrava uma pá de coisas, de cantora de rádio a empregada doméstica, de médica a balconista. Mas resolvi lançar para escanteio aquele jogo. Cansara-me de analisar as pessoas, imaginando besteiras. Todos se esperançavam com miséria. O salário não passava de meia-dúzia de cascalhos, merrecas insuficientes para atravessar os primeiros dias do mês. Pior que eu estava sem dinheiro até para o cigarro, pedindo algum emprestado a mamãe todos os dias, feito pinto novo com frio.
- Astrogildo!
Chegara minha vez, finalmente! Levantei-me e atravessei várias salinhas. Lembravam-me as pocilgas de uma fazenda que visitara. Em cada uma, dois a três empregados de calça azul marinho, camisa branca e gravata. Passei por uma garota compenetrada, conferindo notas. Imaginei-a na cama, depois de três uísques. O homem é assim: trás uma cara para sustentar as aparências, uma para enfrentar as paredes e outra para encarar as circunstâncias. Prefiro a última, onde até senadores da república engatinham.
Surpreendi-me com a ausência da secretária. Ia perguntar o porquê, mas...
- Boa tarde, senhor!
- Olá! Sente-se. O senhor é gaúcho?
- Não. Mas morei treze anos no Rio Grande do Sul. Só na cidade de Santa Vitória do Palmar, fronteira com o Uruguai, terra mui buena, foram seis anos. Representante de laboratório. Vendia xarope à base de mel e ervas.
- E daí? - Perguntou o poderoso chefão.
- O quê? O xarope?
- Não. O emprego.
- Gaúcho não é de tomar xarope. Quando a coisa enfeia, ele vira uma cachaça azulada do 5º distrito de Canguçu. Depois, lasca uma colherada de mel campeiro lá do Alegrete, com umas ervas estranhas. É receita que cura a gripe mais resistente! Havia mês que a comissão não comprava um cachorro-quente. Pedi as contas, pois não aceitaram meu pedido para trocar de região. Desejava Duque de Caxias, no Estado do Rio, onde o tal xarope faria bastante sucesso.
- Você vendeu xarope durante treze anos?
- Não. Em diante, vendi desde planos de aposentadoria de uma instituição de Santa Maria, parece-me que negócio de instituição militar. Quase me enrolei, pois o tal plano levou a breca. Também me meti com um tal de "Bolon de la Suerte", que se dizia garantido pelo Governo Uruguaio, com sorteio semanal pela televisão. Tudo mentira! Tratava-se de modelada picaretagem, sabe? Ao tipo de certas garantias dadas pelo governo brasileiro e depois, ó! Só que eu acreditava que a coisa era séria e me dava mal. A única atividade positiva foi a de vendedor de pêssego, morango e maçã numa banca do mercado municipal de Pelotas. O resto só me trouxe problemas. Quer saber a verdade? Pedi dinheiro emprestado para minha viagem de volta. Foram anos jogados no lixo, sentindo cheiro de churrasco e lambendo os beiços. Dei muito de frente com piratas!
- É. O senhor traz leve sotaque.
- Mas foram treze anos! Nasci em Santa Maria Madalena.
- Mas veja! Terra da dona Dercy Gonçalves!
- Sim. O senhor a conhece?
- Quem? A dona Dercy ou Santa Maria Madalena?
- Os dois.
- Nenhum dos dois. A dona Dercy, só na televisão. Saí de Madalena bem novinho.
- Ela é boa artista, não acha?
- Tem lá seu valor, pois vive sendo homenageada, fazendo anúncio na TV e xingando todo mundo nos programas dominicais.
Fiquei na minha. Falar mais o que de Dercy Gonçalves? Uma humorista reconhecida. Ao demais, não entendi aquela de chamá-la de “dona”. Vai ser respeitoso assim nos quintos do inferno!
- O senhor sabia que nossa empresa tem uma tradição de mais de cinquenta anos?
- Pois não.
- E que nosso lema é "Honestidade e Trabalho"?
- Pois não.
- E que aqui todos vestem a camiseta?
- Pois não.
- Qual a sua idade?
- Faço quarenta daqui a um mês.
- Quarenta? Desempregado?
- Como lhe contei. Ao chegar do Sul, empreguei-me numa fábrica de cera. Só que pegou fogo. Deixou todo mundo na mão. Foram três anos jogados fora. Depois, entrei noutra empresa.
- Esta outra tocava o quê?
- Transporte. Eu trabalhava no escritório. Certo dia, apareceram policiais e oficiais de justiça. Prenderam o gerente, lacraram os arquivos e o cofre. Mandaram os empregados aguardar em casa. Até minha indenização foi pro buraco. A empresa não depositava fundo de garantia. Tudo errado. Trabalhavam com mercadorias roubadas de caminhoneiros.
- O senhor ficou com um pé na frente e outro atrás?
- Exato. Felizmente, solteiro.
- É contra o casamento?
- Não. Mas hoje tá difícil casar. Já pensou se eu fosse casado? Estaria... ralado.
Quase falei um palavrão. Seria minha desgraça. Ele se parecia com um papa-missas, tipo irmão mariano.
- O senhor é simpático. Tem conta em banco?
- Não. Não tenho dinheiro, não tenho conta.
- Cartão de crédito?
- Não.
- Poupança?
- Não.
- O senhor não tem nada?
- Coragem e disposição. Garanto-lhe que me saio bem como chefe de expedição. Diga-me uma coisa: qual é o salário?
- O senhor se preocupa com o emprego ou com o salário?
- Confesso-lhe que me preocupo com os dois.
- Gostei da sinceridade. Passaram bons candidatos por aqui, mas nenhum se encorajou de falar em salário.
O dia que estourasse uma revolução, pensei com meus botões, aquele velho safado seria o primeiro a se esconder debaixo do penico.
- Colocarei duas cruzes ao lado do seu nome. Tem enorme significado na seleção. No setor de recrutamento, você não imagina o simbolismo dessas duas cruzes colocadas aqui. Eu sou diretor da empresa, você sabe, não é? Mando e desmando nessa joça!
- Muito obrigado. Como saberei do resultado?
- Tem telefone?
- Tenho, da minha tia. Todos os dias nos vemos.
- Ótimo. Escreva na ficha, nessa linha em branco.
Escrevi o número e fui dispensado. Aguardasse pelo resultado uma semana.
Despedi-me. Quando saía, me chamou.
- Mais um pouquinho. Tenho uma última pergunta. Já teve doença venérea?
Pensei um pouquinho e lasquei:
- Já. Gonorréia.
- Curou?
- Sim. Só que, depois, peguei um tal de cancro mole.
- Cancro mole?
- Exato. É uma doença venérea causada pelo estreptobacilo de Ducrey. Quase perdi o pênis, senhor. Mas me salvei e estou aqui, inteirinho da silva. Já perdi a conta de quantas dei, depois da cura. A libido ficou até mais apurada, por incrível!
- Muita sorte sua! Já pensou perder o pênis?
- Quer saber de uma coisa, senhor? Há milhares de homens no Brasil que vivem sem esse apêndice. Doença mal curada, câncer, por aí.E passam a não sentir falta dele. Mais alguma coisa, senhor diretor?
- Não. Está dispensado.
Quando alcançava a porta de saída, o velho chamou para uma última pergunta.
- Joga no bicho?
- Que bicho?
- Jogo-do-bicho.
Pensei rápido e disse que não, ao que o velho lascou:
- Pois então tente! O número do telefone de sua tia é muito bonito. Até lá!
Senti que o velho era um baita sacana, irônico para mais de metro. Gozava com a minha cara. Só podia. Mas eu não deixei por menos.
Retornando à saleta, observei as cadeiras tomadas. Era uma vaga para muitos candidatos. Cruzei por uma fêmea exuberante. Se fosse eu o responsável pela entrevista, tava resolvido. Sentaria ao meu lado todos os dias, no final do expediente. Tinha uma cara de quem gostava de bolinagem.
Quando atingi o térreo e coloquei o pé na rua, virei para mim mesmo e disse:
- Tu és um babaca!
Ao chegar em casa, Tânia estava uma fera.
- Você se meteu aonde?
- Atrás de um emprego, pô! Entrevistou-me o gerente de uma empresa. Um cocô empalhado. Dezenas de candidatos para uma vaga. Pensei não mais existisse lugar igual aquele. Todos vestindo calça azul, camisa branca e gravata. As mulheres uniformizadas, saia azul e blusa branca, com uma fitinha vermelha amarrada no pescoço. Pareciam colegiais. Ninguém calçava tênis. Era silêncio de cemitério. Concentração geral. Todos escreviam, conferiam notas e batiam carimbos. Nunca vi tanto carimbo! Era plac pra cá, era ploc pra lá, era pluc pracolá. Senti-me dentro do ninho da burocracia nacional. O entrevistador era um coroa, bigode fininho, cara larga; vestia um terno pesadão, gravata do início do século; dava ordens atrás de uma mesa que teria, no mínimo, cem anos. Eu queria ver aquele sujeito dentro de um quarto com uma mulher nua, do tipo capa de revista! Acho que ele me fez de bobo. Escuta bem, Tânia: ele me fez de bobo!
- É assim mesmo, Astrogildo. Essa gente precisa escolher bem seus empregados. Afinal de contas, quem te conhecia lá? Concorda? Você chega com esse jeitão de indiferença e termina se ralando! Aliás, quem está por baixo, precisando, sempre acha que é feito de bobo.
- Se me conhecessem, tudo seria diferente. Vejo-me sentado e aquele cara chamando Dercy Gonçalves de “Dona Derci”. Olha, se eu tivesse tomado uma boa dose, mandaria ele se cagar. Fui educado. Aliás, tava difícil superar sua hipocrisia, seu deboche, sua ironia, seu cinismo. Ao me dar conta, estava lá fora, na calçada, com um tremendo peso na cabeça, como se tivesse levado um chifre. Arrependidão de não tê-lo mandado às favas!
- Eles são assim mesmo.
- Escute, Tânia. Aceitarei qualquer emprego, inclusive de vendedor de Carnê da Felicidade. O dinheiro da entrada é do vendedor e é pago na hora?
- Ninguém tá mais nessa de comprar Jogo da Felicidade. Tá faltando dinheiro até pro pão! Essa gente anda numa merda que faz gosto. Rico não compra carnê, para depois trocar por panelas, frigideiras e copos superfaturados.
- É verdade. Só pobre se mete nessa. E pobre tá ralado. Mal consegue uma galinha no final da semana. Mas meu caso é trabalhar. Provarei isso. Desfolharei os classificados, enquanto meus dedos suportarem.
- E eu te sustentando!
- Pô, você me ama ou engana?
- Amar um cara igual a você cansa. Nunca me deu boa vida. Jamais me convidou para jantar fora. Sequer pagou um pastel com caldo de cana. Com você, é só na base do venha a nós!
- Escuta uma coisa, Tânia, se eu tivesse seu corpo, estaria independente. Como é que você ganha dinheiro? Não é tirando dos otários? Você não faz força. Aliás, a força que faz é tirar a roupa e aguentar um vagabundo alguns minutos em cima de você. Traz para casa dinheiro limpinho, com imposto de renda descontado na fonte e tudo mais.
- O corpo é meu e eu sei como faço as coisas. Não há prazer nessas relações. Não o traio, você sabe. Trabalho por necessidade, minha e sua.
- Só não tenha prazer com esses vagabundos! Se isso acontecer, quebro-lhe a cara!
- Pare de ameaças e vá trabalhar. Com que moral você diz isso? Me dê um tapa que eu largo tudo. Aí, sim, você verá o que é bom!
- Me desculpe. Ando nervoso. Tomemos uma cervejinha. Amanhã, enfrentarei um calhamaço de classificados.
Desisti de vender carnês, verdadeiros blocos de algodão doce para cima do pobrerio. Ele não cai mais na esparrela de acreditar em prêmios fabulosos, tipo casas, carros, passeios, terrenos, barras de ouro e dinheiro. Uma senhora idosa disse-me que não era à-toa que o troço tinha o nome de Jogo da Felicidade. Era verdade. O Brasil estava atolado de arapucas, do Oiapoque ao Chuí.
Naquele morrer de tarde, depois de rodar mais que pião em mão de moleque arteiro, cheguei em casa morto de cansado, mas feliz por uma coisa: jogara toda a papelada do Jogo da Felicidade dentro de um valão. Não passaria incautos para trás.
Tânia saíra para o trabalho. Trabalho, nada! Fornicar, divertir-se e ganhar dinheiro! Sentei na varanda e tomei todas que pude. Depois, comi um angu frio com ovos e feijão e dormi. A manhã seguinte esperava-me com uma porrada de ofertas de emprego. Eu tinha que agir, senão a Tânia me mandaria para a casa da mamãe, como fizera da outra vez. Ela não acreditava no meu empenho para arrumar emprego decente.
Por volta das nove, chegou um moleque correndo e gritando meu nome.
- Seu Astrogildo! Seu Astrogildo!
Que merda. Eu estava no melhor do sono, as pernas enroscadas nas pernas de Tânia, que chegara quase de manhã da boate. Não houve jeito. Parecia que o mundo acabaria. Levantei e o atendi.
- O que é, moleque?
- Venho a pedido de sua tia. Toma o bilhete.
Agradeci. Abri o papel de embrulhar pão e li o bilhete:
"Caro sobrinho, há pouco recebi um telefonema da Empresa Mundial de Exportação e Importação. Falava o Diretor, um tal de dr. Durval, dizendo que você foi classificou em primeiro lugar para a vaga de Chefe de Expedição. Fiquei tão feliz, meu querido sobrinho, que quase tive um troço. Sempre acreditei em você. Boa sorte. Mostre para essa gente que você é da família dos Talarico Bravo da Silva! Um beijo, da sua querida tia."
Que porcaria. Acabou a sopa! Já não sei como agir para me afastar desses compromissos desagradáveis! Tânia se esbaldará com a notícia!

O CIUMENTO

Zeca Barros roía-se de ciúmes. Mas suportava o tirão diante dos rabiscos de olhos atirados para cima de sua linda mulher. Disfarça daqui, disfarça dali, aparentava seriedade de zorrilho atolado. No verão, Dolores viajava para o Balneário do Rio Camaquã, onde inaugurava biquínis sumaríssimos. Aí, a coisa enfeiava!
Quando o uso de calça comprida para mulheres se tornou comum, ele quase morreu. Como pedir-lhe para não usá-la? Mortificava-o vê-la desfilando com a roupa grudada ao corpo, exibindo as formas tintim por tintim, despertando a imaginação luxurienta dos homens e, quiçá, de alguma duvidosa.
Ele sabia que ciumeiras abalavam o casal. "Sei que ciúme além da conta faz as mulheres enjoar dos homens" - pensava. Essa a razão de aguentar o tranco, triste que nem carneiro abichado na guampa.
Na época da anágua, piscava para Dolores, indicando-lhe a ponta da veste interna ressumbrando fora do vestido. Nunca se sofreu tanto, por causa do desgraciado sentimento! Sua alma era um caldeirão de amargores. Avolumava-se a cada decisão de não demonstrar ciúme.
A coisa era tão forte, que até de febre de origem desconhecida ele padecia. Professores secundários, ambos recebiam muitos amigos em casa. Era raro não aparecer visitas nos fins de semana. Zeca desconfiava até da sombra. Ficava zureta com Dolores, quando lhe aplicavam beijos de cumprimento. Reclamar, como? Cairia no ridículo, caso se irresihnasse diantes de tais manifestações de carinho. Já ele não cumprimentava as amigas com beijinhos. Fazia-o de propósito. Era uma forma de mostrar seu contragosto às intimidades com sua mulher. Não adiantava. Tanto foi que, como a calça comprida, passou a aceitar tais cumprimentos como normais. Ele mesmo passou a receber as colegas com um beijo na face. Nada de três beijinhos - para casar, como diziam. Nas reuniões sociais, não desgrudava da mulher. Ai se ela conversasse a um canto com alguém! Não dormiria à noite.
Dolores conhecia o marido que tinha, mas não imaginava a intensidade do ciúme. Bonita, professora de história requisitada, excelente mãe, dona de casa e boa amante, Zeca não desgrudava.
Não bastassem os transtornos do cotidiano, Zeca desconfiava que a mulher mantinha relações íntimas pensando noutros homens. Essa idéia tornou-se fixação.
Como acontece, novela tem sempre um galã, o bonitão conquistador, ideal, forte, valente, protótipo do amante mais-que-perfeito, do marido que as sogras desejam para suas filhas. Como não dava aulas à noite, Dolores acompanhava a novela das oito com atenção. Como se diz, era fissurada por uma novela. Zeca não suportava. Certo sábado, após o noticiário, Zeca permaneceu defronte à televisão e acabou assistindo à novela. Pra quê?! O galã, jovem empresário e solteiro, relacionava-se com uma mulher casada. Zeca assistiu logo os capítulos mais quentes, quando o casal se apresentava em encontros ardentes, na cama de casal da infiel. A cara do ciumento esquentou; o coração descompassou; a cabeça era um redemoinho. Naquela noite, fingiu-se com dor de cabeça e não quis intimidades com Dolores. Só cara feia. "Certamente, ela pensa naquele cafajeste, enquanto o boboca aqui é corneado descaradamente. Comigo, não!" - Pensou ele, com a alma cheia de grilos. Aqueles pensamentos não ficaram por ali. Reforçaram-se no dia seguinte. Teve vontade de tirar uma peça da televisão, avariando-a, até terminasse a novela. Porém, pensou nas crianças, nos programas infantis e por aí afora. Ao demais, teria que levar a televisão para conserto e o dinheiro estava curto. Por outro lado, levantaria suspeitas, caso ele mesmo mesmo encontrasse o "defeito" algum tempo depois. Ainda por cima, Dolores sabia que Zeca não entendia nada de nada, quando se tratasse de aparelho elétrico ou eletrônico. Durante toda a semana, Zeca se furtou a qualquer contato mais aproximado com Dolores. Ora alegava cansaço, ora dor de cabeça, ora preocupação com as prestações da geladeira.
No sábado seguinte, resolveu permanecer e assistir aos capítulos daquela noite. Lá estava o gostosão! De seu personagem, ninguém sabia a profissão, o que tocava, donde provinha a grana do feijão com arroz. Estava sempre atrás de uma enorme mesa, ao lado de belas secretárias. Era empresário, ninguém sabia de quê. Passava a novela inteira bolando um meio de fornicar com a amante casada.
Ela, a infiel, cheia de cinismos, servia o café da manhã ao marido, dava-lhe beijinhos quando este saía para o trabalho, enfim, uma grande mulher na idéia do guampudo.
Zeca imaginava Dolores dando-lhe beijinhos pela manhã, ao sair para dar aulas! Também aquela noite foi de solidão para Dolores. A cabeça de Zeca fervia. Nem se quisesse conseguiria algo na cama. Andava mais cego que gato embolsado.
Pela manhã, apanhou o jornal, sentou-se na varanda, acendeu um cigarro e percorreu o noticiário. Na capa, uma chamada interessou-lhe: "Marco Coralles e Suas Confissões Íntimas - Caderno da TV". Não perdeu tempo, buscando a notícia. De repente, suas feições transformaram-se. Encheu-se de estranha felicidade. Ali, Marcos Coralles, o machão da novela das oito, dizia-se homossexual, acrescentando que era muito feliz ao lado de seu homem, há mais de dez anos. Zeca levantou-se e saiu gritando pelo nome de Dolores.
- Dolores! Dolores! Onde está você?
Logo surgiu a mulher, tomada de espanto.
- O que houve, Zeca?
Resfolegando, soltou a voz:
- Olhe aqui! Não disse que esse cara era bicha? Logo que o vi, senti que não gostava de mulher!
- O que está dizendo? Nunca falou nada sobre isso.
- Nunca? É... acho que só pensei! Tudo bem.
- Ao demais, que Marcos Coralles seja boiola, já é coisa antiga. E quer saber, Zeca: sinto nojo desse cara!
Dolores olhou para o marido se afastando com o caderno da TV apertado nas mãos, vibrando da mesma forma quando seu time faz um gol. Fazer o quê? Voltou para a cozinha para terminar o prato predileto de Zeca: bucho com batatas e agrião. Afinal, agradá-lo era preciso, pois fazia uma semana que estava a pão e água. Pela cara do Zeca, acreditou que o jejum terminaria naquela noite.
E foi o que aconteceu. Pareciam em lua-de-mel.

O MORALISTA

Alfredo recebera educação esmerada. Cumpria com seus deveres, respeitador, bom marido, enfim, um homem de bem. Mas o instinto trazia lá reminiscências do animal irracional, como ele mesmo dizia, montando violações clandestinas na área da libido. Por essas e outras, todas as vezes em que via Doralice, o coração disparava, o sangue ardia de sensualidade, os olhos faiscavam.
Era a mulher de seu amigo e vizinho, Ronaldo Diaz, um descendente de peruano alto, cabelos negros e bastos, inteligente e de bem com a vida. Visitavam-se com frequência. A atração de Alfredo por Doralice, porém, ia um pouco além do que se permitiria nas circunstâncias. E ele não se sentia bem com isso. Afinal, tratava-se de mulher fiel ao marido. Acima de tudo, pensava, o respeito ao lar, à mãe, ao vínculo matrimonial.
Depois de questionar bastante, incapacitado de amainar as vivas emoções, diminuiu as visitas à casa dos amigos. Ao ser visitado, tinha sempre uma desculpa na ponta da língua para sair. Não estragaria a antiga amizade, nem destruiria uma família. Sua mulher notara diferenças, tanto que lhe perguntou o que acontecia. Tranquilo, respondeu que não era nada. Apenas andava atarefado com os relatórios da empresa.
Em decorrência da situação criada pelos sentimentos luxuriosos, abriu mão de uma série de outras visitas, inclusive à sua mãe e irmãos.Quanto às desculpas para ausentar-se, quando Ronaldo e esposa chegavam, dizia à mulher ser pura coincidência.
Já não suportava tanto engodo! Tanto foi que, certo dia,
anunciou que o transferiram para outra cidade. Não adiantaram os lamentos da mulher inconsolada. Em duas semanas, mudaram-se. Ela esbravejou, ameaçando com a separação. Mas partiram. Antes, contudo, não fugiu à festa de despedida em sua casa, onde reuniu vários casais com ele bem relacionados. Naquela noite, Alfredo testificou seu intenso desejo de possuir a mulher de Ronaldo. Somente não se lançou à empreitada de conquista, porque era sério, senhor de senso ético forte.
Respeitava as famílias; movia-o fé fervorosa. Era homem de ir à missa e comungar aos domingos. Para dizer bem de sua carolice, foi o fiel da paróquia que mais protestar, quando mexeram no molde confessional da igreja. Gostava de ajoelhar-se diante do padre e abrir o jogo. Nunca escondia nada. Sua inteireza moral era louvável. Por tudo e mais um tanto tramado no seu ardor concupiscente, afastar-se-ia do casal amigo. Já não suportava as impulsões desnorteadoras.
Contudo, sua mulher não conseguia ficar longe dos parentes e dos amigos. Fazia viagens frequentes à antiga cidade, onde os visitava, bem como assim aos amigos. Retornava para casa feliz, relatando os encontros, inclusive com Doralice e Reinaldo. No fundo, Alfredo gostava que sua mulher visitasse o casal. Não pretendia, era evidente, o rompimento da amizade, só porque o pecado lhe rondasse a porta. Não, isso não. Seria infantilidade.
Alguns meses depois, Reinaldo e Doralice aparecem de surpresa. Tudo bem. O tempestuoso sentimento dera uma trégua, aquietara-se. Manter-se-ia aquietado durante um fim de semana.
Conversaram muito, colocando a agenda em ordem e, à noite do primeiro dia de visita, sentaram-se para uma partida de buraco. A felicidade de sua mulher transcendia, bem como assim a das visitas.
Lá pelas tantas, flagraram Cidinho, filho de Alfredo, garoto mais que levado, empurrando um enorme vaso sobre um tripé. Colocava-se em visível estado de perigo; poderia lhe cair o objeto sobre a cabeça, com consequências imprevisíveis. Foi só um grito de Doralice e a mulher de Alfredo se levantou de súbito. Entretanto, ela não se livrou do cipó entrelaçado do assento da cadeira. Sua calcinha ficara presa numa ponta dele, no beiral da cadeira. Todos presenciaram a cena, inclusive Alfredo, que se levantara para acudir o menino. Inexplicável o fato de a calcinha ficar presa na cadeira, justo pelo elástico da cintura. Só se estivesse arriada até o meio da coxa. Criou-se situação desconfortável, mas ela se ajeitou e o jogo prosseguiu meio sem graça, mais por parte de Doralice e Alfredo; pela cara, Reinaldo não se abalara, dizendo, inclusive, que aquilo acontecia com cadeiras populares, farpadas, constituíndo-se, algumas vezes, em fonte de lesões. Só não explicou como a calcinha se prendeu pelo elástico da cintura...
Alfredo foi dormir sem graça. Não tocou no assunto com a mulher. Remoeu o acontecido. No dia seguinte, não muito tarde, o casal se foi.
A vida seguiu. Na semana seguinte àquela visita, a mulher de Alfredo aprontou-se para uma visita aos parentes e amigos. Nessas ocasiões, passava de dois a três dias em andanças. No mesmo dia de sua saída, à noite, Alfredo recebeu um telefonema. Era o detetive particular contratado para seguir sua esposa. Afinal, quando eram noivos e jogavam cartas, ela gostava que Alfredo colocasse o dedão do pé nas suas intimidades. Para tanto, arriava as calcinhas até o meio da coxa. Do telefonema, não colheu notícia boa: sua mulher encontrava-se num motel, em companhia de um cidadão de nome Reinaldo Diaz. Alfredo foi ao desespero.
De madrugada, a pressão era insuportável. Após breve leitura de textos bíblicos, sua força moral levou-o a tomar atitude extrema. Dirigiu-se à garagem e apanhou o recipiente com veneno destinado a ratos. No seu entender, comprava passagem para uma vida melhor.
Para sua mulher, não havia necessidade de bilhetes. Sua família, porém, recebeu uma carta, onde, ao fim, dizia que enterrariam um corpo moralmente falido, diante do acontecido nos bastidores de seu casamento. Disse, ainda, que tudo mudara e que só ele ficou a ver navios.
Para essa tragédia, quem apontaria culpados?



O ATORMENTADO

Pedro ouvia vozes,  um burburinho estranho. Muito pouco identificava frases inteiras, apenas palavras soltas, lamentosas, pedindo ajuda. Passou a enfrentar essa situação depois de moço, 19 ou 20 anos. Antes, a vida transcorria normalmente; agora vivia sob o jugo de terríveis apreensões. Ao que apurara, detinha poderes de salvar almas penadas ou coisa parecida. "Dá-me tua mão! Dá-me tua mão!" Quer dizer, não era simples assim.  A voz  surgia gemebunda, arrastada e bem próxima. Com o tempo, acostumara-se aos calafrios. A dor maior era a de manter silêncio sobre tudo o que ouvia, sem poder compartilhar com parentes ou amigos. Temia ser chamado de louco e ser levado para o hospício. Ser-lhe-ia como a própria morte, ser tachado de esquizofrênico. Seria pior, muito pior, entregar-se a confidências com quem quer que fosse. A princípio, imaginou que tudo seria questão de tempo. Chegou a pensar em alucinações e que, em breve, se livraria do pesadelo. Qual nada! Passaram-se dois anos e ele definhava, pouco saía de casa. Às vezes, faltava o trabalho durante dias, entregando-se ao quarto fechado, sob lençóis ou cobertores. A situação recrudescia, quando eram muitas as vozes, em coro, donde se destacavam intensas súplicas: "Salve-me, pelo amor de Deus!"; "Já não suporto as chamas deste inferno!"; "Estão me levando, socorro, tirem-me daqui!"; "Não fiz nada, não fiz nada. Deixem-me em paz! Socorro!"; "O que fiz para sofrer tanto assim? Ai, meu Deus! Afaste esse abismo de meus passos!" Isso era todo dia. Já não comia direito. Seus pais, preocupados com sua saúde, não sabiam mais o que fazer. Certa noite, pela madrugada, ele despertou ouvindo uma voz diferente. Disse-lhe: "Sei que  seu desespero é grande. Muitas vezes, fica a pensar sobre a desgraça que se abate, sem saber a razão. Fique certo, porém, que não há mal algum no que lhe acontece. São espíritos que encontraram um canal aberto que atinge direto sua existência. O normal é não ouvirmos esses lamentos." Pedro Perguntou quem era ele e porque lhe dava aquelas explicações. A voz prosseguiu: "Não sou do bem nem do mal, não conheço o céu, nem o inferno. Vago a milhões de anos pelos universos habitados e sei o que acontece dentro de cada um dos seres vivos. Quando alguma coisa foge da normalidade, isto é, quando há alguma interferência entre a vida espiritual e a material, como no seu caso, fico observando e me divertindo, até entrar em cena para tentar afastar a tormenta do sofredor." Pedro agradeceu e perguntou quando se livraria daquelas vozes. O estranho respondeu que Pedro deveria, dentro de sete dias, visitar o cemitério municipal, à noite, e desenterrar o corpo de um homem sepultado na carneira número 1236. Após, pedir-lhe que o ajudasse a se livrar dos espíritos que o perseguiam. Realizada a tarefa, diria ao morto: "Vá com Deus! Vá com Deus! Vá com Deus!" Tudo muito simples, mas que teria de ser feito, para salvá-lo da multidão de espíritos que invadira sua privacidade - transmitiu-lhe a voz.
Pela manhã, Pedro estava em dúvida a respeito do que acontecera. Não sabia se sonhara ou se realmente uma voz recomendara-lhe a tarefa de ir ao cemitério para fazer o trabalho recomendado. Aquele contato conturbara-o. Soubera, certa feita, que o espírito saía do corpo enquanto a pessoa dormisse. Estaria ele recebendo a visita de espíritos, cujos corpos se entregaram ao sono? Seria de gente conhecida, pretendendo ajuda? Mas, e a ida ao cemitério, para desenterrar um corpo e pedir-lhe ajuda? Pensou em conversar com seus pais, mas estava com medo de intranquilizá-los.Tais os conflitos, que terminou perdendo o emprego. Os estudos, abandonara-os fazia alguns meses. Trancado em casa, ouvia as vozes indesejadas,  algumas ameaçadoras: "Se não me ajudar, eu buscarei você para caminhar pela eternidade." Pedro não tinha a menor idéia de como ajudar àqueles espíritos, ou pessoas, não sabia ao certo a quem. Aos clamores e súplicas, devolvia silêncio e medo. Achava-se perdido! O único aceno de ajuda partiu daquela voz que determinou fosse ele ao cemitério desenterrar um determinado corpo. Mas praticaria o crime de violação de cadáver! Falaria com o delegado? Não, não falaria com ninguém!
Os dias se passaram e, na véspera do sétimo dia, preparou uma pá e uma enxada. Duante a manhã seguinte, visitou o cemitério, para identificar a cova. Não indagou da administração o local. Resolveu ele mesmo peregrinar pelos estreitos caminhos do campo santo, até encontrar a cova 1236. Duas horas depois, encontrou a fila que daria nela, pois acompanhava os números 1221, 1222, 1223... 1228, 1229... 1233, 1234... 1236. Ali estava a cova... vazia! Ficou sem saber no que pensar. Naquele dia ou no dia seguinte seria enterrado ali o defunto, com o qual falaria, segundo a voz lhe revelara naquela madrugada. Resolveu passar a tarde na volta do cemitério, para ver se o enterro seria naquele dia. Nada! Foi para casa, tomou banho, jantou e foi dormir. Não bem se sentou na cama, sentiu uma forte dor no peito e gemeu. Sua mãe, ao chegar, encontrou o filho sem condições de falar, espumando a um canto da boa. Sofrera um enfarto fulminante, nada adiantando ser levado para o hospital. Foi velado em casa.  A mãe dizia que, nos últimos meses, seu filho não estava bem. Com certeza, escondia algo importante da família. No dia seguinte, por volta das l6 horas, o corpo baixou à sepultura. Cova nº 1236! Em diante, um espírito cheio de revoltas desencarnou, juntando-se aos demais. Agora alma errante, passou a compreender o desespero que ressumbrava daquele vozerio todos os dias. Eram espíritos inconformados com a morte, enganados por um ente maquiavélico que prometia salvação, mas que, no fundo, sabia do destino das pessoas. Pedro assistiu a muitos casos como o seu. Ele gemia, mas não variava nas suas súplicas: sempre pediu justiça aos pecadores e não pecadores.